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PubMed · matérias do Fôlego· Cai Q, Dong H, Wu C et al.·· há 5 dias

Framework AFSP estratifica risco anestésico em três etapas do tratamento de tumor traqueal complexo: análise retrospectiva de um caso

Framework AFSP estratifica risco anestésico em três etapas do tratamento de tumor traqueal complexo

Resumo por IA

Pesquisadores do First Affiliated Hospital of Guangzhou University of Chinese Medicine descreveram o framework AFSP (Anatomia-Função-Cirurgia-Paciente), escore de 0 a 12 em quatro dimensões, e sua aplicação em um homem de 77 anos com neoplasia traqueal complexa submetido a três procedimentos sequenciais.

Texto

Em um paciente de 77 anos, escore caiu de 11 (grau IV) para 8 e depois 9 (grau III), guiando a desescalada do suporte com ECMO para ventilação em jato de alta frequência.

Pesquisadores do First Affiliated Hospital of Guangzhou University of Chinese Medicine, na China, descreveram a construção preliminar do framework AFSP (Anatomia-Função-Cirurgia-Paciente), uma ferramenta de estratificação de risco em quatro dimensões, e sua aplicação no manejo anestésico de um paciente de 77 anos com neoplasia traqueal complexa submetido a três procedimentos sequenciais. O escore foi de 11 pontos (grau IV, risco extremamente alto) na ablação tumoral com implante de stent, caiu para 8 pontos (grau III) na retirada do stent e ficou em 9 pontos (grau III) na ressecção de tecido de granulação. A estratégia anestésica foi ajustada a cada etapa, do suporte com ECMO venovenoso na primeira fase à indução de sequência rápida com ventilação em jato de alta frequência nas seguintes, sem complicações anestésicas graves ao longo das três fases.

Contexto

A obstrução de via aérea central é uma emergência crítica causada por lesões que afetam a traqueia e os brônquios. Tumores traqueais malignos, muito vascularizados e friáveis, impõem grande desafio anestésico, pois o desprendimento e o sangramento podem provocar eventos de "cannot intubate, cannot oxygenate" (CICO) no perioperatório. O tratamento de neoplasias traqueais complexas exige um processo em múltiplas etapas, como diagnóstico, debulking tumoral, colocação de stent, manejo de complicações e retratamento de recidivas, com o objetivo de restaurar a perviedade da via aérea, ajudar o paciente a se libertar do suporte ventilatório e melhorar a qualidade de vida. Ao longo dessas fases, a anatomia da via aérea e a função pulmonar mudam em um ciclo de tratamento, reparação, nova lesão e retratamento, o que desloca o perfil de risco e complica o manejo perioperatório. Segundo os autores, as diretrizes ASA de 2022 para via aérea difícil focam o manejo de um evento único e não oferecem um framework para mudanças dinâmicas da via aérea, e os estudos atuais sobre via aérea complexa concentram-se em protocolos de emergência de uma única cirurgia de alto risco, sem estratificação de risco padronizada que cubra todo o curso multietápico.

Como foi feito

Trata-se de análise retrospectiva do curso de tratamento de um único paciente, com construção do instrumento de escore AFSP a partir de diretrizes clínicas e literatura relevantes. O framework foi desenvolvido para este estudo e não havia sido publicado antes; um grupo de anestesiologistas e pneumologistas intervencionistas chegou a consenso sobre quatro domínios (Anatomia, Função, Cirurgia e Paciente), cada um pontuado de 0 a 3, com peso igual, total de 0 a 12 e quatro graus de risco (I a IV). Para a dimensão Anatomia, considerou-se o grau de estreitamento (≤ 25%, 26%–75% ou ≥ 76%) e a presença de lesão em sítios críticos como carina ou glote; para Função, níveis de SpO₂ e sintomas; para Cirurgia, o grau de invasividade do procedimento; para Paciente, a classificação ASA. O caso foi o de um homem de 77 anos, ASA III, com massa mucosa na traqueia distal a cerca de 1 cm da carina, invadindo a carina e os brônquios principais, com estenose luminal grave. O framework foi aplicado de forma seriada em três fases: ablação tumoral com implante de stent, retirada do stent e ressecção de tecido de granulação. O caminho de decisão dinâmica previa reavaliação AFSP a cada etapa, predição dirigida dos pontos de colapso, formulação de estratégia individualizada e monitoramento intraoperatório contínuo de pressão de via aérea, SpO₂ e hemodinâmica, além de prontuário de via aérea e seguimento regular.

O que encontraram

Na fase I, em 28 de outubro de 2024, o escore AFSP foi 11 pontos (Anatomia 3, Função 3, Cirurgia 3, Paciente 2), grau IV de risco extremamente alto. A tomografia mostrava oclusão completa do brônquio principal esquerdo e diâmetro de apenas 2,04 mm no segmento estenótico do brônquio principal direito, com grau de estenose de 83,0%; a gasometria em repouso mostrava PaO₂ 73 mmHg, PaCO₂ 48 mmHg e pH 7,32. Optou-se por anestesia geral com suporte de ECMO venovenoso, com canulação sob anestesia local por veia femoral direita (drenagem) e veia jugular interna direita (infusão), heparina mantendo ACT entre 180 e 220 s, velocidade inicial de 4.160 r/min e fluxo sanguíneo de 4,25 L/min. Após indução com propofol 100 mg e rocurônio 50 mg, a SpO₂ caiu para 87%; a broncoscopia rígida foi inserida imediatamente e iniciou-se ventilação em jato de alta frequência manual pelo portal lateral (frequência de 100 a 150 bpm, pressão motriz de 15 a 20 psi, relação I:E de 1:2). A inspeção do circuito de ECMO revelou migração ascendente do cateter de drenagem após a mudança de posição, com redução do fluxo; o cateter foi reposicionado, a velocidade foi aumentada brevemente e a SpO₂ voltou a 99% em 90 segundos. A cirurgia durou 80 minutos, com biópsia, crioablação e hemostasia com argônio no tumor direito, dilatação com balão reduzindo a estenose a 40%, e crioablação e ressecção com alça no tumor do brônquio principal esquerdo, seguida de implante de stent metálico totalmente recoberto de 12 mm × 40 mm. A perda sanguínea estimada foi de 20 mL, e o exame anatomopatológico confirmou carcinoma pulmonar de pequenas células. O paciente permaneceu em ECMO por 365 minutos no total e ficou 3 dias na UTI, com alta hospitalar sem intercorrências.

Na fase II, em 16 de dezembro de 2024, após quatro ciclos de quimioterapia com gencitabina e carboplatina e resposta parcial, o paciente desenvolveu infecção relacionada ao stent com aumento de secreções endoluminais. O escore AFSP caiu para 8 pontos (Anatomia 2, Função 2, Cirurgia 2, Paciente 2), grau III de alto risco, e o suporte com ECMO foi descontinuado. Realizou-se indução de sequência rápida com ventilação em jato de alta frequência superposta (SHFJV: baixa frequência de 10 a 20 bpm com volume corrente de 8 a 10 mL/kg, alta frequência de 100 a 200 bpm, pressão motriz de 12 a 18 psi), mantendo PaCO₂ entre 35 e 45 mmHg, com protocolo de emergência para hemorragia disponível. A retirada do stent e a limpeza da via aérea transcorreram sem sangramento significativo, e o paciente recebeu sugamadex para reversão e retornou à enfermaria, sem eventos adversos.

Na fase III, em 31 de outubro de 2025, hiperplasia de tecido de granulação pós-intervenção causou estenose recorrente do brônquio principal esquerdo, com estenose de 85% na tomografia e tecido de granulação de 45 mm × 27 mm à broncoscopia. Diabetes de início recente e ansiedade pré-operatória aumentaram o risco de estresse perioperatório. O escore AFSP foi 9 pontos (Anatomia 3, Função 2, Cirurgia 2, Paciente 2), grau III. Manteve-se indução de sequência rápida e SHFJV, com acréscimo de intervenção psicológica pré-operatória, ressecção precisa do tecido de granulação e hemostasia local; a perda sanguínea estimada foi de 5 mL, com oxigenação e hemodinâmica estáveis e perviedade luminal satisfatória na revisão broncoscópica pós-operatória. Não houve complicações anestésicas graves nas três fases.

Limitações

Os autores reconhecem que se trata de estudo de caso único, com amostra pequena, e que a generalização das conclusões precisa de validação em coortes maiores, além de o instrumento AFSP necessitar de otimização com mais dados clínicos. A avaliação do grau de estenose e da intensidade de estimulação cirúrgica depende fortemente da experiência clínica subjetiva, e o framework não passou por validação externa, o que os autores apontam como necessidade de estudos prospectivos futuros. O framework também depende de recursos médicos avançados, como ECMO e broncoscópios rígidos, o que limita sua aplicabilidade em hospitais de menor complexidade. O desenho retrospectivo de um único centro e a ausência de grupo controle não permitem atribuir os desfechos ao framework.

Para o especialista

Para o anestesiologista e o especialista em via aérea, o relato descreve um instrumento de escore em quatro dimensões, aplicado de forma seriada, que orientou a intensidade da estratégia anestésica em três procedimentos do mesmo paciente: suporte profilático com ECMO venovenoso na fase de maior risco, com desescalada para indução de sequência rápida e SHFJV quando o escore caiu, e manutenção dessa estratégia com acréscimo de intervenção psicológica na recidiva por tecido de granulação. O texto detalha parâmetros de ventilação, manejo do circuito de ECMO e conduta na queda transitória de SpO₂ por migração do cateter. Como se trata de caso único, sem validação externa e com escore ainda não validado, o material sustenta a geração de hipóteses e a demonstração de conceito, não a superioridade do framework sobre outras condutas.

Referência

Cai Q, Dong H, Wu C et al.. Preliminary construction and application of the AFSP risk stratification framework for anesthetic management in airway tumors: a case report. BMC Anesthesiol 2026.

DOI: 10.1186/s12871-026-04110-5 · PubMed: 42894122

Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY-NC-ND.

Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.

Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org