Controle automatizado da pressão do cuff reduz tempo fora da faixa-alvo em crianças ventiladas
Em ensaio clínico randomizado cruzado e multicêntrico com 32 crianças de 1 mês a 18 anos sob ventilação mecânica, o controle automatizado da pressão do cuff manteve a faixa de 15 a 25 cmH2O por mais tempo que o ajuste manual intermitente feito pela enfermagem.
O ensaio cruzado randomizado mostra que a pressão do cuff oscila fora da faixa com o ajuste manual intermitente, o que ajuda a repensar a rotina de monitorização na criança ventilada.
Em ensaio cruzado com 32 pacientes, o sistema automatizado manteve a pressão entre 15 e 25 cmH2O por muito mais tempo e reduziu a carga de trabalho da enfermagem.
Um ensaio clínico randomizado cruzado, multicêntrico e prospectivo comparou o controle automatizado da pressão do cuff da cânula endotraqueal com o ajuste manual intermitente feito pela enfermagem em crianças de 1 mês a 18 anos sob ventilação mecânica. Nos 32 pacientes que completaram as duas fases de 24 horas, os episódios de pressão baixa (abaixo de 15 cmH2O) foram mais frequentes no período manual (12,7% versus 1,3%, p < 0,001), e os de pressão alta (acima de 25 cmH2O) ocorreram apenas no manual (2,6% versus 0%, p < 0,001). O tempo total fora da faixa-alvo caiu de 118 horas no manual para 10 horas no automatizado (p < 0,001), e a carga de trabalho da enfermagem foi menor na fase automatizada (3,65 h versus 0,08 h, p < 0,001).
Contexto
A pressão adequada do cuff da cânula endotraqueal é essencial para vedar a via aérea e, ao mesmo tempo, minimizar a microaspiração e a lesão traqueal em crianças ventiladas. Segundo os autores, a monitorização manual intermitente pode permitir variações importantes de pressão e sofrer influência de artefatos de medida, o que potencialmente reduz a proteção da via aérea. O estudo foi desenhado para verificar se o controle automatizado mantém melhor a pressão-alvo do que a monitorização manual e quais os efeitos sobre a exposição a pressões fora da faixa e sobre a carga de trabalho.
Como foi feito
Ensaio clínico prospectivo, randomizado, cruzado e multicêntrico, com pacientes pediátricos de 1 mês a 18 anos em ventilação mecânica com expectativa de permanência de pelo menos 48 horas. Cada paciente passou por duas fases randomizadas de 24 horas de monitorização, uma manual e outra automatizada. Na fase manual, a pressão do cuff era continuamente exibida por um sistema fechado, sem desconexões repetidas do manômetro, e ajustada de forma intermitente pelas enfermeiras à beira do leito conforme protocolo predefinido. Na fase automatizada, a pressão era continuamente regulada por um sistema de controle automático para manter a faixa-alvo de 15 a 25 cmH2O. Os desfechos primários foram a frequência e a duração cumulativa da exposição a pressões fora da faixa-alvo; a carga de trabalho da enfermagem foi desfecho secundário. Trinta e dois pacientes completaram as duas fases, totalizando 768 medições. O estudo foi registrado no ClinicalTrials.gov (NCT06965400).
O que encontraram
Episódios de pressão baixa, abaixo de 15 cmH2O, foram mais frequentes na monitorização manual do que na automatizada (12,7% versus 1,3%, p < 0,001). Episódios de pressão alta, acima de 25 cmH2O, ocorreram apenas na fase manual (2,6% versus 0%, p < 0,001).
O tempo total fora da faixa-alvo foi acentuadamente menor com o controle automatizado: 118 horas contra 10 horas (p < 0,001).
A carga de trabalho da enfermagem também foi significativamente menor na fase automatizada, com 3,65 horas contra 0,08 hora (p < 0,001).
Os autores concluem que o controle automatizado mantém a pressão-alvo de forma mais confiável e minimiza desvios clinicamente importantes em comparação ao manejo manual, e que os resultados apoiam a adoção da regulação automática contínua como estratégia preferencial para aumentar a segurança da via aérea e reduzir a carga de trabalho em crianças sob ventilação mecânica.
Limitações
Trata-se de estudo com somente o resumo disponível, o que limita a avaliação de detalhes metodológicos. O tamanho da amostra foi pequeno (32 pacientes que completaram as duas fases), e cada fase durou apenas 24 horas, de modo que o estudo não avalia desfechos clínicos como microaspiração, lesão traqueal ou tempo de ventilação. Por ser um ensaio cruzado, cada paciente serviu como seu próprio controle, mas não há informação no material sobre cegamento dos avaliadores nem sobre a população de pacientes que iniciou e não completou o protocolo.
Para o pediatra
O estudo mostra que, em crianças ventiladas, a pressão do cuff ajustada apenas por checagens manuais intermitentes da enfermagem oscilou com frequência para fora da faixa de 15 a 25 cmH2O, sobretudo para valores baixos, e que o controle automatizado contínuo reduziu essas oscilações. Para o pediatra que acompanha uma criança intubada, isso reforça que a pressão do cuff é um parâmetro que varia ao longo do dia e que o manejo depende da rotina da unidade; o material não traz orientações sobre quando encaminhar ou sobre condutas individuais.
Para o especialista
Para quem maneja via aérea de crianças ventiladas, o ensaio cruzado randomizado mostra que o controle automatizado contínuo, comparado ao ajuste manual intermitente com protocolo e sistema fechado, reduziu a frequência de episódios de hipopressão e eliminou os de hiperpressão, além de diminuir o tempo total fora da faixa-alvo e a carga de trabalho da enfermagem. O desenho randomizado e cruzado fortalece a comparação intrapaciente, mas a amostra pequena, as fases curtas de 24 horas e a ausência de desfechos clínicos no material disponível limitam a conclusão sobre benefício clínico direto; os achados sustentam a superioridade do controle automatizado na manutenção da pressão-alvo, não necessariamente em desfechos de lesão de via aérea.
Referência
Soydan E, Gokpınar EE, Karakaya O et al.. Automated Versus Manual Endotracheal Tube Cuff Pressure Control in Mechanically Ventilated Children: A Randomized Crossover Trial. Paediatr Anaesth 2026.
DOI: 10.1002/pan.70268 · PubMed: 42461207
Acesso: o artigo completo é pago na editora. Autores costumam enviar uma cópia a quem pede pelo e-mail de correspondência indicado no artigo.
Matéria escrita pelo Fôlego a partir do resumo publicado.
Fonte: Paediatric Anaesthesia · doi.org