Laringoscopia flexível em queimaduras de cabeça e pescoço: etiologia por idade e achados em 279 pacientes de um centro terciário na Turquia
Queimaduras de cabeça e pescoço avaliadas por laringoscopia flexível: etiologia por idade e achados em 279 pacientes
Em coorte retrospectiva de centro único na Turquia, 279 pacientes com queimaduras de cabeça e pescoço submetidos a laringoscopia flexível entre junho de 2022 e dezembro de 2024 tiveram 6,5% de necessidade de via aérea definitiva (4,7% intubação e 1,8% traqueostomia), sem mortalidade atribuída às queimaduras.
Em coorte turca com 43,4% de crianças, escaldadura predominou nos pacientes pediátricos e chama e explosão nos adultos; 6,5% precisaram de via aérea definitiva.
Estudo retrospectivo de centro único na Turquia descreveu 279 pacientes com queimaduras de cabeça e pescoço submetidos a laringoscopia flexível por suspeita de acometimento da via aérea entre junho de 2022 e dezembro de 2024. A média de idade foi de 25,4 ± 22,6 anos, com 43,4% de pacientes pediátricos. Entre os 162 pacientes com etiologia documentada, a escaldadura predominou nas crianças (57,4%) e a chama (31,9%) e a explosão (23,4%) nos adultos (p < 0,001). Edema de mucosa foi visto em 41,2% e hiperemia em 19,4%; intubação foi necessária em 4,7% e traqueostomia em 1,8%, sem mortalidade atribuída às queimaduras de cabeça e pescoço.
Contexto
Queimaduras de cabeça e pescoço são um subgrupo exigente porque podem comprometer a via aérea, causar desfiguração e morbidade psicológica duradoura. A lesão por inalação, frequentemente associada a queimaduras faciais, permanece uma das principais causas de morte entre queimados, e o calor dos gases pode produzir edema rápido da mucosa e obstrução com risco de vida. A laringoscopia flexível permite visualizar diretamente as estruturas supraglóticas e glóticas e tem sido proposta como ferramenta de triagem da via aérea. Segundo os autores, faltam dados de coortes que misturem crianças e adultos, sobretudo fora de países de alta renda, e a maioria dos estudos existentes trata da epidemiologia geral das queimaduras ou de uma única subpopulação, com pouca análise conjunta da distribuição anatômica e dos achados laringoscópicos.
Como foi feito
Coorte retrospectiva e observacional conduzida no Başakşehir Çam and Sakura City Hospital, centro terciário com unidade de queimados e UTI de queimados em Istambul, Turquia, entre junho de 2022 e dezembro de 2024. Foram incluídos pacientes de qualquer idade com queimadura documentada de face, orelhas, pescoço, couro cabeludo ou via aérea superior submetidos a laringoscopia flexível por suspeita de lesão por inalação, queimadura facial ou de via aérea superior, ou indicador de risco clínico (rouquidão, estridor, dispneia, fuligem orofaríngea ou vibrissas nasais chamuscadas). Foram excluídos pacientes intubados antes da chegada, com trauma craniano maior concomitante, patologia laríngea ou traqueal prévia, mais de 30% de dados críticos ausentes, imagens laringoscópicas tecnicamente inadequadas e saída a pedido. A laringoscopia foi feita por especialistas em otorrinolaringologia por via transnasal, com anestesia tópica e sedação conforme protocolo institucional em crianças pequenas quando necessário. Profundidade e superfície corporal queimada total (TBSA) não estavam sistematicamente registradas e não puderam ser analisadas.
O que encontraram
A média de idade foi de 25,4 ± 22,6 anos (mediana 23,0; variação 0–83), com 121 pacientes pediátricos (43,4%; média de 3,8 ± 4,6 anos) e 158 adultos (56,6%; média de 42,0 ± 15,8 anos). As faixas mais frequentes foram 18–40 anos (27,6%), 0–2 anos (24,7%) e 41–65 anos (23,3%); 72,0% eram do sexo masculino. A distribuição sazonal foi relativamente uniforme, com discreto predomínio de primavera (28,0%) e outono (27,2%).
A etiologia não estava documentada em 117 pacientes (41,9%). Entre os 162 com etiologia registrada, escaldadura respondeu por 25,9%, queimadura elétrica por 23,5%, chama por 21,6% e explosão por 15,4%; químicas, de contato e por óleo quente somaram 13,6%. Entre as crianças com etiologia documentada (n = 68), escaldadura foi o mecanismo mais comum (57,4%) e chama foi infrequente (7,4%); entre os adultos (n = 94), predominaram chama (31,9%), explosão (23,4%) e elétrica (23,4%), com diferença significativa entre os grupos (χ2 = 68,23, df = 4, p < 0,001).
A face foi a região mais acometida (70,3%), seguida de envolvimento da via aérea superior à laringoscopia (42,3%), orelhas (40,5%), cavidade oral (24,0%), pescoço (13,3%) e couro cabeludo (1,4%); as porcentagens não são mutuamente exclusivas. À laringoscopia, houve edema de mucosa em 41,2%, hiperemia em 19,4%, secreção excessiva em 15,1%, laringe considerada normal em 25,8%, pregas vocais normais/móveis em 44,4% e estridor em 2,5%.
Dezoito pacientes (6,5%) precisaram de via aérea definitiva: 13 intubações (4,7%) e 5 traqueostomias (1,8%). Nesse subgrupo, 77,8% eram adultos e 66,7% tinham chama ou explosão como etiologia documentada; todos os 18 apresentavam edema de mucosa e envolvimento de via aérea superior, 83,3% tinham queimadura facial e 38,9% estridor. Para predizer intervenção definitiva, o edema de mucosa teve sensibilidade de 100,0% (IC 95% 82,4–100,0) e valor preditivo negativo de 100,0% (IC 95% 97,7–100,0), com especificidade de 62,8% (IC 95% 56,8–68,5) e valor preditivo positivo de 15,7% (IC 95% 10,1–23,4); o estridor, presente em 7 dos 18, teve especificidade e valor preditivo positivo de 100,0% e valor preditivo negativo de 96,0% (IC 95% 92,9–97,7). Acompanhamento próximo foi recomendado para 42,7%, e apenas 4 pacientes (1,4%) precisaram de internação adicional. Não houve mortalidade atribuída às queimaduras de cabeça e pescoço.
Limitações
Os autores destacam que o desenho retrospectivo de centro único limita a generalização e que a inclusão exigia laringoscopia, de modo que a coorte representa o subconjunto selecionado para avaliação de risco de via aérea, não todo o espectro de queimaduras de cabeça e pescoço. A limitação mais crítica é a ausência de registro sistemático de profundidade e TBSA, o que impede distinguir se a baixa taxa de intubação refletiu o protocolo laringoscópico ou apenas a gravidade predominantemente leve a moderada da coorte; indicadores substitutos de gravidade, como internação em UTI, tempo de internação, ventilação mecânica e tratamento cirúrgico, também não estavam disponíveis. O número de eventos de intervenção (n = 18) ficou abaixo do limiar de 10 eventos por variável e impediu regressão logística multivariável, de modo que nenhuma regra de predição clínica deve ser derivada desses achados. A etiologia faltante em 41,9% impede excluir viés sistemático, e os dados anonimizados não permitiram comparar casos com e sem etiologia documentada. Exames otológico e rinológico foram feitos apenas quando indicados, o que subestima a prevalência real desses achados. Não foram capturados de forma estruturada o intervalo entre a queimadura e a laringoscopia, a frequência de reexames, a intubação tardia após exame inicial negativo nem o momento da intervenção; a concordância entre observadores não pôde ser avaliada, e não houve seguimento de longo prazo para complicações tardias, desfechos funcionais e qualidade de vida.
Referência
Sutaşır MN, Turan M, Mohamed MM et al.. Epidemiological and Laryngoscopic Characteristics of Head and Neck Burns Requiring Airway Evaluation: A Single-Center Retrospective Cohort. Medicina (Kaunas) 2026.
DOI: 10.3390/medicina62101837 · PubMed: 42942368
Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY.
Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.
Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org