Aspiração de alfinete metálico em criança assintomática: diagnóstico por imagem e remoção por toracotomia após 35 dias
Uma menina de 13 meses, assintomática, teve um alfinete metálico aspirado localizado no segmento posterobasal do lobo inferior esquerdo por radiografia e tomografia, após esofagogastroscopia normal, e o objeto foi removido por toracotomia posterolateral esquerda após 35 dias, sem complicações.
Menina de 13 meses sem sintomas teve o corpo estranho localizado no segmento posterobasal esquerdo por radiografia e tomografia, após endoscopia digestiva normal.
Relato de caso descreve uma menina de 13 meses que aspirou um alfinete metálico e permaneceu clinicamente assintomática durante todo o manejo. A suspeita partiu da mãe, que percebeu o desaparecimento do objeto; a endoscopia digestiva inicial foi normal e o diagnóstico só foi firmado por radiografia de tórax no segundo dia de internação, seguida de tomografia que localizou o alfinete no segmento posterobasal do lobo inferior esquerdo. Uma broncoscopia não conseguiu retirar o objeto, e a remoção definitiva foi feita por toracotomia posterolateral esquerda após 35 dias, sem complicações.
Contexto
A aspiração de corpo estranho é uma emergência pediátrica reconhecida e importante causa de morbidade e mortalidade em lactentes e crianças pequenas, mas o diagnóstico costuma ser tardio quando os sintomas são inespecíficos ou ausentes. Embora exista a tríade clássica de tosse, sibilância e redução do murmúrio vesicular, parte considerável das apresentações é mínima ou totalmente assintomática, o que aumenta o risco de diagnóstico perdido ou tardio e de complicações. Por isso, o artigo defende limiar baixo para imagem em situações suspeitas, sendo a radiografia habitualmente o exame inicial; a sensibilidade varia conforme as características do objeto, e sinais diretos e indiretos aumentam a certeza diagnóstica. O texto também lembra que a anatomia brônquica da criança pequena difere da do adulto, com ângulos de bifurcação dos brônquios principais mais amplos e simétricos, o que distribui os corpos estranhos de forma mais equilibrada entre os dois lados, enquanto a broncoscopia rígida permanece o padrão diagnóstico e terapêutico.
Como foi feito
Trata-se de um relato de caso de uma menina de 13 meses, filha de costureira, atendida inicialmente em unidade de atenção primária periférica e encaminhada a um centro de referência. A criança chegou estável, com exame clínico sem alterações, e a suspeita inicial foi de ingestão de corpo estranho, motivando esofagogastroscopia no primeiro dia de internação, que foi normal. Diante da persistência da preocupação materna, foi solicitada radiografia de tórax no segundo dia, seguida de tomografia computadorizada para localização do objeto. A paciente foi encaminhada à unidade de cirurgia cardiotorácica para manejo definitivo, com tentativa de broncoscopia no segundo dia que não conseguiu retirar o corpo estranho. O texto não informa o período do atendimento nem o tempo total de seguimento além das consultas de revisão.
O que encontraram
A radiografia de tórax mostrou corpo estranho linear opaco no lobo inferior esquerdo, junto ao diafragma, e a tomografia localizou o objeto no segmento posterobasal do lobo inferior esquerdo. Tratava-se de objeto metálico levemente curvo, com densidade extremamente alta (2171,38 HU), com a ponta inferior junto ao diafragma; a reconstrução em 3D também foi apresentada. A radiografia anotada mostrou ângulos de bifurcação dos brônquios principais praticamente iguais (direito 141,5° e esquerdo 141,4°).
A criança permaneceu estável e ativa durante quatro dias de internação e foi liberada para aguardar a cirurgia. A broncoscopia do segundo dia falhou pela dificuldade de retirada do corpo estranho. A cirurgia definitiva foi adiada por 35 dias por dificuldades financeiras, com acompanhamento ambulatorial semanal e sem registro de mudança do estado clínico.
Foi realizada toracotomia posterolateral esquerda, com remoção do alfinete metálico sem complicações. No pós-operatório, a criança recebeu morfina intravenosa, fluidos intravenosos, fisioterapia respiratória e suporte intermitente de oxigênio, tendo alta no terceiro dia pós-operatório. As revisões foram agendadas a cada dois meses, e na primeira revisão a paciente estava estável, com ferida operatória limpa e seca; o texto final relata que a criança segue bem, sem complicações.
Limitações
Trata-se de um relato de caso único, sem grupo controle, o que não permite generalizar condutas nem estabelecer superioridade de qualquer estratégia. O seguimento descrito é curto e limitado à primeira revisão, e o desfecho favorável neste caso não pode ser extrapolado para outras crianças com aspiração. O atraso de 35 dias até a cirurgia decorreu de barreiras financeiras, um fator contextual que influencia o desfecho relatado. Além disso, o objeto era metálico e radiopaco, o que facilitou a visualização; os autores reconhecem que corpos estranhos radiolucentes, mais comuns na infância, podem passar despercebidos e que a tomografia pode não estar sempre disponível.
Para o pediatra
O caso mostra uma criança de 13 meses sem tosse, sibilância ou alteração do murmúrio vesicular, com exame físico normal e comportamento ativo, em quem a suspeita de aspiração partiu apenas da observação da mãe sobre o desaparecimento de um alfinete. A endoscopia digestiva foi normal e o diagnóstico só veio com a radiografia de tórax, reforçando que a ausência de sintomas não exclui aspiração e que a história relatada pelos cuidadores deve ser valorizada. O artigo recomenda limiar baixo para imagem em casos suspeitos e observação prolongada mesmo quando o quadro parece tranquilizador, lembrando que a maioria dos corpos estranhos aspirados em crianças é orgânica e radiolucente, o que pode gerar radiografias falsamente negativas.
Para o especialista
O relato reforça que a broncoscopia rígida segue como primeira linha, com taxas de sucesso superiores a 90–95% segundo a literatura citada, mas que objetos pontiagudos ou impactados distalmente podem exigir cirurgia, como nesta criança, em que a tentativa endoscópica falhou e a remoção foi feita por toracotomia posterolateral esquerda. O texto chama atenção para a distribuição equilibrada dos corpos estranhos entre os dois lados em crianças abaixo de 3 anos, coerente com ângulos de bifurcação dos brônquios principais quase iguais medidos neste caso (141,5° à direita e 141,4° à esquerda), e defende avaliação radiográfica dirigida também ao hemitórax esquerdo. Por ser um caso único, o grau de confiança é baixo e serve como ilustração de possibilidades, não como base para mudança de conduta.
Referência
Appiah Kubi SM, Idun EA, Amedi MK et al.. Imaging-based diagnosis of cryptic foreign body aspiration in a toddler with normal clinical presentation: A case report. Radiol Case Rep 2026.
DOI: 10.1016/j.radcr.2026.09.059 · PubMed: 42959744
Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY-NC-ND.
Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.
Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org