Videolaringoscopia na intubação pediátrica de emergência: revisão sistemática do ILCOR mostra mais sucesso na primeira tentativa e menos eventos adversos graves
Videolaringoscopia na intubação pediátrica de emergência: mais sucesso na primeira tentativa e menos eventos adversos graves
Revisão sistemática encomendada pelo Grupo de Trabalho de Suporte de Vida Pediátrico do ILCOR, com 18 estudos e mais de 24 mil intubações, encontrou 72,2% de sucesso na primeira tentativa com videolaringoscopia contra 69,0% com laringoscopia direta (RR 1,11; IC 95% 1,06–1,16) e menos eventos adversos graves associados à intubação (7,7% versus 11,8%; RR 0,76; IC 95% 0,62–0,93), ambos com certeza de evidência muito baixa.
A revisão encomendada pelo ILCOR reúne pronto-socorro, UTI pediátrica e pré-hospitalar e mostra que o ganho da videolaringoscopia na primeira tentativa vem acompanhado de menos eventos graves, com certeza muito baixa.
Revisão sistemática com 18 estudos e mais de 24 mil intubações encontrou 72,2% de sucesso na primeira tentativa com videolaringoscopia contra 69,0% com laringoscopia direta, com certeza de evidência muito baixa.
Revisão sistemática encomendada pelo Grupo de Trabalho de Suporte de Vida Pediátrico do ILCOR comparou videolaringoscopia e laringoscopia direta na intubação traqueal de emergência em crianças, fora do centro cirúrgico. Foram incluídos 18 estudos, 17 observacionais e um ensaio clínico randomizado, com dados de pronto-socorro pediátrico, UTI pediátrica e ambiente pré-hospitalar. O sucesso na primeira tentativa foi maior com videolaringoscopia (72,2% versus 69,0%; RR 1,11; IC 95% 1,06–1,16), e os eventos adversos graves associados à intubação traqueal foram menos frequentes (7,7% versus 11,8%; RR 0,76; IC 95% 0,62–0,93), ambos com certeza de evidência muito baixa. O sucesso global e a dessaturação não diferiram de forma estatisticamente significativa, e nenhum estudo relatou desfechos de sobrevida ou dados específicos de parada cardíaca.
Contexto
A intubação traqueal é elemento crítico da reanimação, pois permite oxigenação e ventilação em situações graves e protege contra aspiração traqueal. Crianças submetidas à intubação têm menor taxa de sucesso na primeira tentativa e mais complicações fisiológicas que adultos, pela maior suscetibilidade à dessaturação e à bradicardia, pelas diferenças anatômicas da via aérea e pela experiência limitada dos profissionais com intubação pediátrica. Se há boa evidência de possível superioridade da videolaringoscopia nas intubações pediátricas eletivas, a melhor abordagem nas intubações de emergência, inclusive durante reanimação cardiopulmonar e em situações peri-parada como choque e insuficiência respiratória, permanecia incerta. A videolaringoscopia foi recomendada pela American Heart Association e pelo European Resuscitation Council durante a pandemia de COVID-19, e diretrizes mais recentes do European Resuscitation Council também apoiam seu uso por profissionais treinados; as recomendações atuais do ILCOR, porém, não tratam especificamente do tema, sobretudo na parada cardíaca pediátrica.
Como foi feito
Revisão sistemática registrada no PROSPERO (CRD420251081694), conduzida segundo o framework do ILCOR e relatada conforme o PRISMA, com buscas em MEDLINE, Embase e Cochrane desde o início até 1º de maio de 2026. Foram elegíveis ensaios clínicos randomizados e estudos não randomizados que comparassem videolaringoscopia e laringoscopia direta em lactentes e crianças com necessidade de intubação de emergência, em qualquer ambiente, incluindo durante reanimação cardiopulmonar, imediatamente após retorno da circulação espontânea e em situações peri-parada; excluíram-se adultos, neonatos ao nascer, lactentes em UTI neonatal, intubações eletivas ou em centro cirúrgico, uso do videolaringoscópio como resgate, séries de casos, estudos em animais e em manequins e resumos de congresso. Os desfechos críticos foram sobrevida à alta hospitalar, sucesso na primeira tentativa, sucesso global da intubação e eventos graves associados à intubação traqueal; entre os importantes, tempo até a intubação, número de tentativas e dessaturação. Dois revisores avaliaram independentemente títulos e textos completos, um extraiu os dados e um segundo verificou; o risco de viés foi avaliado com ROBINS-I e RoB2, e a certeza da evidência, com GRADE. As meta-análises usaram modelo de efeitos aleatórios de Mantel–Haenszel, com razões de risco (RR) e intervalos de confiança de 95%, e análises de subgrupo por ambiente (pronto-socorro pediátrico, UTI pediátrica e pré-hospitalar) e por desenho do estudo.
O que encontraram
A busca identificou 1.586 registros; após remoção de 599 duplicatas, 987 foram triados por título e resumo, 36 avaliados em texto completo e 18 incluídos. A maioria era observacional, sobretudo coortes retrospectivas e análises de registro, com apenas um ensaio clínico randomizado; o dispositivo mais usado foi o C-MAC, e as populações eram predominantemente de crianças abaixo de 18 anos, com pequena proporção de pacientes mais velhos em alguns estudos de registro, não relatada separadamente.
Para o sucesso na primeira tentativa, 17 estudos reuniram 24.714 pacientes, 10.720 submetidos à videolaringoscopia e 13.994 à laringoscopia direta: a taxa foi de 72,2% versus 69,0% (RR 1,11; IC 95% 1,06–1,16; certeza muito baixa), com heterogeneidade moderada. Sete estudos vinham do registro NEAR4KIDS, com períodos parcialmente sobrepostos; a análise de sensibilidade pré-especificada que manteve apenas o maior estudo de cada período sobreposto encontrou estimativa semelhante (RR 1,11; IC 95% 1,05–1,17).
Os eventos graves associados à intubação traqueal foram relatados em 13 estudos, com 31.834 intubações, em sua maioria de grandes registros multicêntricos: 7,7% com videolaringoscopia versus 11,8% com laringoscopia direta (RR 0,76; IC 95% 0,62–0,93; certeza muito baixa), com definições não uniformes entre os estudos. O sucesso global da intubação, relatado em 7 estudos com 1.670 pacientes, foi alto nos dois grupos e sem diferença significativa (96,2% versus 93,0%; RR 1,00; IC 95% 0,99–1,01; certeza muito baixa). A dessaturação, em 11 estudos não randomizados com 22.700 pacientes, não diferiu de forma estatisticamente significativa (16,2% versus 19,1%; RR 0,88; IC 95% 0,77–1,01; certeza muito baixa), com limiares distintos entre os estudos (SpO2 ≤80% em sete, ≤90% em outros).
Nos subgrupos por ambiente, no pronto-socorro pediátrico a videolaringoscopia associou-se a maior sucesso na primeira tentativa (RR 1,13; IC 95% 1,05–1,21) e menor dessaturação (RR 0,80; IC 95% 0,66–0,98), sem diferença nos eventos graves (RR 0,80; IC 95% 0,62–1,04); na UTI pediátrica, houve maior sucesso na primeira tentativa (RR 1,06; IC 95% 1,02–1,09) e menos eventos graves (RR 0,65; IC 95% 0,52–0,81), sem diferença clara na dessaturação (RR 0,93; IC 95% 0,87–1,00); no ambiente pré-hospitalar, os poucos estudos e a imprecisão limitaram conclusões (RR 1,13; IC 95% 0,66–1,95). Não houve diferença significativa entre subgrupos para nenhum desses desfechos. O número de tentativas e o tempo até a intubação foram sintetizados de forma narrativa, com poucos estudos: em um deles, a mediana foi de 1 tentativa (variação 1–5) com videolaringoscopia e de 2 (variação 1–8) com laringoscopia direta (p < 0,01); em outro, o tempo mediano de laringoscopia foi de 40 s (IQR 28–64) versus 34 s (IQR 22–49), diferença de 6 s (IC 95% 1–12 s).
Limitações
A maioria dos estudos incluídos era observacional e com risco de viés sério, sobretudo por confusão na indicação da videolaringoscopia e por diferenças na experiência dos operadores, já que a escolha do dispositivo se liga à gravidade do paciente e à dificuldade prevista, além da tendência temporal de aumento do uso da videolaringoscopia nos últimos anos. A dependência de dados de registro autorrelatados introduz viés de mensuração dos desfechos, particularmente para tentativas falhas e eventos adversos peri-intubação. O único ensaio randomizado mostrou estimativa em direção diferente para os eventos graves (RR 1,24; IC 95% 0,51–3,01), embora com intervalo amplo e sem interação estatisticamente significativa por desenho. As definições de desfechos, sobretudo de eventos adversos e dessaturação, foram heterogêneas; a maioria dos estudos não relatou separadamente pacientes com cardiopatia congênita cianótica; as estimativas agrupadas se baseiam em dados não ajustados e estão sujeitas a confusão residual; e a sobreposição residual entre registros não pode ser completamente excluída, apesar das análises de sensibilidade. O relato de desfechos secundários foi inconsistente, sugerindo viés de relato, e a variabilidade de dispositivos de videolaringoscopia limita atribuir os efeitos a um aparelho específico. As análises de subgrupo pré-hospitalar e por idade se basearam em poucos estudos, e alguns desfechos não puderam ser agrupados.
Para o pediatra
O estudo reuniu evidências de pronto-socorro pediátrico, UTI pediátrica e ambiente pré-hospitalar sobre a intubação de emergência em crianças, procedimento em que o sucesso na primeira tentativa se associa a menos complicações graves. Na comparação agrupada, a videolaringoscopia teve taxa um pouco maior de sucesso na primeira tentativa (72,2% versus 69,0%) e menos eventos graves associados à intubação (7,7% versus 11,8%), mas a certeza da evidência é muito baixa e não houve diferença no sucesso global nem na dessaturação. Não havia dados específicos de crianças em parada cardíaca nem de sobrevida à alta hospitalar, de modo que o material não permite afirmar benefício nesses cenários.
Para o especialista
A revisão, encomendada pelo ILCOR, sustenta que a videolaringoscopia pode ser considerada dispositivo de primeira linha na intubação pediátrica de emergência quando houver disponibilidade de equipamento e treinamento dos operadores, com efeito consistente entre pronto-socorro e UTI pediátrica e sem modificação do efeito pelo ambiente. A confiança é limitada: predominam coortes retrospectivas e análises de registro com risco de viés sério por confusão e experiência do operador, as estimativas são não ajustadas, o único ensaio randomizado teve estimativa na direção oposta para eventos graves, e a certeza GRADE é muito baixa para todos os desfechos. Não há dados em parada cardíaca pediátrica nem de sobrevida, e os autores apontam necessidade de estudos prospectivos e randomizados em emergência, com definições padronizadas de desfechos e avaliação do papel da videolaringoscopia no treinamento e na aquisição de competência.
Referência
Couto TB, Acworth J, Rech L et al.. Video laryngoscopy versus direct laryngoscopy for pediatric emergency tracheal intubation: a systematic review and meta-analysis. Resusc Plus 2026.
DOI: 10.1016/j.resplu.2026.101524 · PubMed: 42960018
Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY-NC-ND.
Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.
Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org