Pular para o conteúdo
PubMed · matérias do Fôlego· Freitas IL, Braga JS, Branco AR et al.·· há 1 dia

VV-ECMO como ponte para fechamento de fístula broncopleural de alto débito em ARDS grave: relato de caso

VV-ECMO como ponte em ARDS grave complicada por fístula broncopleural de alto débito

Resumo por IA

Em relato de caso de um homem de 56 anos com choque séptico por pneumonia, empiema e fístula broncopleural de alto débito (vazamento aéreo de cerca de 3 L/min), a ECMO venovenosa iniciada nas primeiras 24 horas permitiu ventilação ultrapulmonar protetora e foi associada à redução progressiva do débito da fístula, com decanulação da ECMO após 12 dias e extubação após 14 dias de ventilação invasiva.

Texto

Em um homem de 56 anos com pneumonia grave, empiema e vazamento aéreo de cerca de 3 L/min, a ECMO venovenosa permitiu ventilação ultrapulmoprotetora e foi associada ao fechamento progressivo da fístula.

Relato de caso de um homem de 56 anos com choque séptico por pneumonia adquirida na comunidade, complicada por empiema, hidropneumotórax e fístula broncopleural de alto débito, que evoluiu com síndrome do desconforto respiratório agudo (ARDS) grave e refratária. A relação PaO₂/FiO₂ era de 87 apesar de PEEP de 10 cmH₂O, e havia vazamento aéreo contínuo de aproximadamente 3 L/min pelo dreno torácico. A ECMO venovenosa foi iniciada nas primeiras 24 horas da admissão, permitindo ventilação ultrapulmoprotetora, e foi associada à redução progressiva do débito da fístula, com decanulação da ECMO após 12 dias e extubação após 14 dias de ventilação invasiva.

Contexto

A pneumonia adquirida na comunidade grave permanece como causa importante de choque séptico e ARDS, sobretudo em pacientes com fatores de risco como abuso crônico de álcool. Em parte dos casos, a infecção pulmonar progride para doença pleuropulmonar complicada, incluindo empiema, hidropneumotórax e fístula broncopleural, condições associadas a morbidade e mortalidade substanciais.

A fístula broncopleural é complicação incomum, porém grave, da infecção pulmonar necrosante e da doença pleural. O vazamento aéreo persistente compromete a ventilação eficaz e cria um dilema terapêutico no paciente com ARDS concomitante: a ventilação pulmoprotetora exige PEEP e pressões de via aérea adequadas para recrutamento alveolar e troca gasosa, mas pressões elevadas podem perpetuar o fluxo pelo trajeto fistuloso, agravar o vazamento e retardar o fechamento. A ECMO venovenosa, além do suporte de troca gasosa, possibilita ventilação ultrapulmoprotetora com volumes correntes e pressões reduzidos, o que potencialmente minimiza o fluxo pela fístula enquanto se trata a infecção de base.

Como foi feito

Trata-se de relato de caso de um homem de 56 anos com histórico de abuso crônico de álcool, admitido no pronto-socorro após ser encontrado em casa em estado comatoso. Na apresentação, havia desconforto respiratório grave com taquipneia e hipoxemia apesar de oxigênio suplementar, taquicardia, pele marmórea e sinais de hipoperfusão periférica; a gasometria mostrava acidose metabólica com lactato elevado e os exames laboratoriais, leucocitose acentuada e marcadores inflamatórios elevados. A tomografia de tórax evidenciou grande coleção pleural à esquerda com focos de ar sugestivos de empiema, colapso atelectásico ipsilateral e desvio contralateral do mediastino, além de consolidações multifocais e opacidades em vidro fosco no pulmão direito.

O paciente foi diagnosticado com choque séptico por pneumonia grave complicada por infecção pleural e disfunção de múltiplos órgãos, com SOFA de 11 e SAPS II de 54. Recebeu noradrenalina em dose de até 0,57 mcg/kg/min e vasopressina, antibioticoterapia empírica com ceftriaxona e azitromicina, foi internado em UTI, intubado e submetido à drenagem torácica esquerda com saída de líquido purulento. Apesar de ventilação mecânica pulmoprotetora, evoluiu com ARDS grave refratária, com pH 7,22, PaCO₂ de 58 mmHg, HCO₃⁻ de 23,7 mmol/L e relação PaO₂/FiO₂ de 87 apesar de PEEP de 10 cmH₂O, bloqueio neuromuscular e posição prona. Diante da falência respiratória refratária e da impossibilidade de manter troca gasosa adequada minimizando o fluxo pela fístula, foi canulado para ECMO venovenosa pela equipe de transporte de ECMO da instituição dentro de 24 horas da admissão e transferido para um centro terciário de ECMO.

O que encontraram

Durante o suporte com ECMO venovenosa, foi instituída ventilação ultrapulmoprotetora, com redução de volumes correntes e pressões de via aérea. A imagem de seguimento mostrou pneumonia persistente e hidropneumotórax loculado à esquerda, apesar do posicionamento adequado do dreno torácico. As culturas iniciais de aspirado traqueal e de líquido pleural não isolaram o agente; diante da melhora clínica gradual, a antibioticoterapia foi descalonada para amoxicilina/clavulanato. Culturas subsequentes do líquido pleural identificaram Prevotella bivia.

A melhora progressiva do vazamento aéreo e da mecânica pulmonar permitiu a decanulação bem-sucedida da ECMO venovenosa após 12 dias. De volta à UTI de origem, a infecção persistente e as complicações permaneceram como desafio; a tomografia após 17 dias de internação mostrava infecção persistente e pneumotórax. Culturas adicionais do líquido pleural isolaram Acinetobacter baumannii, levando a terapia-alvo com sulfametoxazol/trimetoprima conforme o perfil de suscetibilidade do isolado. Pela fonte incompletamente controlada e pela complexidade da infecção pleural, a antibioticoterapia foi mantida por seis semanas no total, com base na evolução clínica, microbiológica e radiológica.

O desmame ventilatório foi alcançado sem necessidade de traqueostomia, com extubação bem-sucedida após 14 dias de ventilação mecânica invasiva. O paciente apresentou melhora progressiva, foi transferido para a enfermaria com ventilação não invasiva domiciliar após 21 dias de UTI e depois para uma unidade de reabilitação, onde completou a antibioticoterapia com evolução clínica e radiológica favorável.

Limitações

Trata-se de relato de um único caso, sem grupo controle, o que não permite estabelecer relação de causa entre a ECMO venovenosa e o fechamento da fístula nem generalizar o resultado para outros pacientes. Os próprios autores reconhecem que a mecânica ventilatória detalhada não foi registrada de forma sistemática antes do início da ECMO, o que impediu quantificar objetivamente a redução das pressões de via aérea obtida após o suporte extracorpóreo. A evolução favorável ocorreu em paralelo a múltiplos outros componentes do tratamento, como drenagens pleurais, antibioticoterapia prolongada e cuidados intensivos multidisciplinares, o que dificulta atribuir o desfecho a uma intervenção isolada.

Para o pediatra

O caso descreve um adulto, mas ilustra uma sequência que também pode aparecer na pediatria: pneumonia grave que evolui com empiema, hidropneumotórax e fístula broncopleural, com piora respiratória progressiva. O sinal que os autores destacam é o vazamento aéreo contínuo e de alto débito pelo dreno torácico, que compromete a ventilação eficaz e dificulta a estratégia ventilatória. O relato reforça que a coexistência de infecção pleural e fístula broncopleural exige controle da fonte e tratamento antimicrobiano prolongado, e que a ECMO venovenosa foi usada como ponte em um paciente selecionado com falência respiratória refratária.

Para o especialista

O caso explicita o conflito fisiológico entre a ventilação pulmoprotetora do ARDS, que requer pressões de via aérea para recrutamento, e a necessidade de reduzir o fluxo pelo trajeto fistuloso para permitir o fechamento da fístula broncopleural. Neste paciente, a ECMO venovenosa iniciada nas primeiras 24 horas permitiu ventilação ultrapulmoprotetora e foi acompanhada de redução progressiva do vazamento aéreo de cerca de 3 L/min, com decanulação após 12 dias e sem necessidade de cirurgia torácica ou VATS. A decisão de indicar a ECMO apoiou-se na refratariedade da hipoxemia e da hipercapnia apesar de PEEP de 10 cmH₂O, bloqueio neuromuscular e posição prona, e o manejo exigiu drenagens pleurais seriadas e seis semanas de antibioticoterapia. O desenho de relato de caso único limita a força da inferência: os achados sugerem benefício em pacientes cuidadosamente selecionados, mas não estabelecem superioridade sobre outras estratégias.

Referência

Freitas IL, Braga JS, Branco AR et al.. Solving a Physiological Conundrum: Veno-Venous Extracorporeal Membrane Oxygenation (VV-ECMO) as a Bridge Strategy in Severe Acute Respiratory Distress Syndrome (ARDS) Complicated by High-Output Bronchopleural Fistula. Cureus 2026.

DOI: 10.7759/cureus.116604 · PubMed: 42904264

Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY.

Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.

Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org