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A literatura que muda a conduta, toda segunda

Laryngoscope Investigative Otolaryngology· Ghadban E, Boutros T, Romani D et al.·· há 8 dias

Ciprofloxacino tópico associado ao antibiótico oral acelerou dor e febre na otite média aguda sem perfuração

Resumo por IA

Ensaio clínico randomizado e aberto com 90 crianças de 0 a 15 anos com otite média aguda e membrana timpânica íntegra mostrou mediana de 3 dias para resolução da dor com ciprofloxacino tópico mais amoxicilina-clavulanato oral, contra 5 dias só com o oral (log-rank p < 0,001).

EM UM MINUTO

O achado
Em ensaio randomizado unicêntrico e aberto, adicionar ciprofloxacino tópico à amoxicilina-clavulanato oral associou-se a resolução mais rápida da dor (mediana de 3 versus 5 dias) e da febre (4 versus 6 dias) na otite média aguda sem perfuração.
Para quem importa
Pediatras e otorrinolaringologistas que atendem crianças com otite média aguda e membrana timpânica íntegra.
Muda algo agora?
NãoGrau do que o próprio estudo sustenta, não uma recomendação do Fôlego.
Estágio da evidência
Artigo revisadoArtigo publicado em revista, após revisão por pares.
População
crianças de 0 a 15 anos, média de 26 meses (variação de 4 a 108 meses) · otite média aguda unilateral com membrana timpânica íntegra, sem perfuração · Clínicas ambulatoriais de pediatria geral e de otorrinolaringologia pediátrica de um centro terciário (Notre Dame des Secours University Hospital)
Desenho
Ensaio clínico (ensaio clínico randomizado, prospectivo, aberto, de grupos paralelos, unicêntrico, com 45 participantes por grupo)
Principal limitação
Estudo unicêntrico, aberto e exploratório, com dor avaliada por procurador na maioria das crianças, sem confirmação microbiológica nem medida da penetração do fármaco na orelha média.
Texto lido
Texto completo aberto
Conflitos de interesse declarados
Os autores declaram não ter conflitos de interesse; financiamento não informado ("The authors have nothing to report").
O que se transfere ao contexto brasileiro
O estudo foi feito em um centro terciário com clínicas ambulatoriais de pediatria e de otorrinolaringologia pediátrica, com seguimento por caderno diário e contato telefônico diário, e não informa o país no texto disponível. A transposição ao contexto brasileiro depende de estrutura ambulatorial e de acompanhamento semelhantes e da disponibilidade das apresentações tópicas e orais usadas, que o material não descreve.
Texto

Ensaio randomizado com 90 crianças mostrou mediana de 3 dias para resolução da dor com gotas de ciprofloxacino mais amoxicilina-clavulanato, contra 5 dias só com o oral

Um ensaio clínico randomizado, aberto, de um único centro, avaliou se adicionar gotas de ciprofloxacino ao antibiótico oral acelera a recuperação de crianças com otite média aguda e membrana timpânica íntegra. Foram randomizadas 90 crianças de 0 a 15 anos (média de 26 meses), 45 para terapia combinada com amoxicilina-clavulanato oral mais ciprofloxacino tópico e 45 para o antibiótico oral isolado, com seguimento de 10 dias. A mediana de tempo até a resolução sustentada da dor foi de 3 dias no grupo combinado e de 5 dias no grupo oral isolado (RMST10 de 3,29 versus 5,42 dias; log-rank p < 0,001). A febre também normalizou mais cedo, com mediana de 4 versus 6 dias (RMST10 de 4,76 versus 5,73 dias; log-rank p = 0,033), sem aumento de eventos adversos. Os próprios autores classificam o achado como gerador de hipóteses, a ser confirmado em populações maiores antes de mudar a prática.

Contexto

A otite média aguda é uma das infecções mais comuns na infância e grande responsável por consultas na atenção primária e por prescrições de antibiótico oral; até os 4 anos, até 60% das crianças já tiveram ao menos um episódio. O tratamento sistêmico tem efeito pequeno sobre a dor nas primeiras 24 horas, melhora modesta nos dias seguintes e reduz pouco a perfuração timpânica e o acometimento da orelha contralateral, ao custo de efeitos adversos como vômitos e diarreia. Em crianças com perfuração ou com tubo de ventilação, as preparações tópicas à base de quinolona alcançam altas concentrações no sítio da infecção com absorção sistêmica mínima, e o ciprofloxacino com dexametasona mostrou resolução mais rápida da otorreia e mais cura clínica que a amoxicilina-clavulanato oral nesse cenário. Na membrana íntegra, porém, ela funciona como barreira à penetração do fármaco, e dados clínicos sobre gotas tópicas nessa situação são limitados; estudos experimentais sugerem que o ciprofloxacino pode atravessar a membrana íntegra e atingir concentrações mensuráveis na orelha média, o que deu base biológica à hipótese testada.

Como foi feito

Ensaio clínico randomizado, prospectivo, aberto, de grupos paralelos, conduzido entre fevereiro de 2024 e dezembro de 2025 em clínicas ambulatoriais de pediatria geral e de otorrinolaringologia pediátrica de um centro terciário (Notre Dame des Secours University Hospital), com aprovação do comitê de ética institucional. Foram incluídas crianças de 0 a 15 anos com diagnóstico clínico de otite média aguda pelos critérios da American Academy of Pediatrics, membrana timpânica íntegra sem perfuração e sem antibiótico sistêmico ou tópico nas 72 horas anteriores; foram excluídas otite média supurativa crônica, otite média com efusão recorrente, perfuração, otite externa, cirurgia otológica prévia, síndromes craniofaciais e alergia a betalactâmicos ou quinolonas. A randomização foi 1:1, por blocos de 30, com sequência gerada por computador e alocação informada ao pediatra no momento da inclusão, um participante por vez. O grupo combinado recebeu ciprofloxacino tópico, 3 gotas na orelha afetada duas vezes ao dia por 10 dias, mais amoxicilina-clavulanato oral 90 mg/kg/dia do componente amoxicilina, divididos em duas tomadas, por 10 dias; o grupo controle recebeu apenas o antibiótico oral na mesma dose e duração. Paracetamol (15 mg/kg a cada 6 horas) e ibuprofeno ou AINE (10 mg/kg a cada 8 horas) eram usados para dor ou temperatura acima de 38°C. Os desfechos primários foram tempo até resolução da dor, tempo até resolução da febre e trajetória diária de dor pela Faces Pain Scale-Revised (FPS-R), com acompanhamento por caderno diário de 10 dias preenchido pelos pais e entrevistas telefônicas diárias; os desfechos de tempo foram analisados por Kaplan-Meier segundo intenção de tratar, com censura no dia 10 para quem não atingisse o critério.

O que encontraram

As 90 crianças foram randomizadas e analisadas, sem exclusões, cruzamentos, interrupções ou perdas, de modo que as populações por intenção de tratar e por protocolo foram idênticas. A média de idade foi de 26,0 ± 21,4 meses (variação de 4 a 108 meses), sem diferença entre grupos (26,1 ± 21,3 versus 26,0 ± 21,9 meses; p = 0,99), e 53,3% eram do sexo masculino. A dor basal média pela FPS-R foi de 6,4 ± 2,8 no grupo combinado e 5,9 ± 3,0 no grupo oral isolado (p = 0,43); dor grave (FPS-R ≥ 8/10) estava presente em 46,7% e 44,4%, respectivamente. A temperatura máxima basal foi de 38,6°C ± 0,5°C versus 38,9°C ± 0,7°C (p = 0,01), e febre alta (≥ 39°C) foi mais frequente no grupo oral isolado (57,8% versus 22,2%), configurando desequilíbrio inicial na gravidade da febre.

A partir do segundo dia, as crianças do grupo combinado tiveram escores de dor consistentemente menores, com as maiores diferenças entre os dias 3 e 5 (todos p < 0,001). Todos os 45 participantes do grupo combinado atingiram resolução sustentada da dor no seguimento, contra 42 de 45 no grupo oral isolado, com 3 censurados (6,7%) no dia 10; até o dia 4, 93,3% do grupo combinado já haviam atingido esse desfecho, contra 42,2% do grupo oral isolado. Para a febre, 44 de 45 (97,8%) no grupo combinado e 43 de 45 (95,6%) no grupo oral isolado atingiram resolução sustentada, com 1 (2,2%) e 2 (4,4%) censurados no dia 10, respectivamente.

O consumo de analgésicos caiu mais rápido no grupo combinado, com interações grupo-tempo significativas tanto para AINE (p = 0,007) quanto para paracetamol (p = 0,017); o uso caiu a zero no dia 8 nos dois grupos. Não houve eventos adversos graves. Diarreia ou vômitos ocorreram em 40% do grupo combinado e 48,9% do grupo oral isolado (p = 0,525), e prurido ou coceira na orelha em 11,1% versus 6,7% (p = 0,714). Rash, prurido ou edema ocorreram em nenhuma criança do grupo combinado e em 7 (15,6%) do grupo oral isolado (p = 0,012). Nenhum caso exigiu escalonamento de tratamento ou evoluiu com perfuração timpânica.

Limitações

Os autores reconhecem que a dor foi avaliada por relato dos pais adaptado da FPS-R, escala validada para autoavaliação a partir de cerca de 4 anos, e a maioria dos participantes era mais jovem, de modo que os escores refletem avaliação por procurador. O estudo é de um único centro ambulatorial, o que limita a generalização; não houve timpanocentese, impedindo confirmação microbiológica dos patógenos e podendo mascarar variação de resposta por etiologia. Pode haver confundimento residual, apesar da randomização, pela pequena diferença de temperatura basal (0,3°C). A motilidade da membrana timpânica não foi formalmente avaliada, e o mecanismo proposto de penetração trans-timpânica do fármaco, inferido de estudos experimentais anteriores, não foi diretamente testado. O histórico de episódios prévios de otite média aguda não foi coletado prospectivamente e não pôde ser comparado entre os grupos. Por fim, o ensaio não foi registrado prospectivamente em registro público de ensaios clínicos, apesar da aprovação ética prospectiva e da existência de protocolo aprovado antes do início do recrutamento. O desenho aberto e o tamanho de amostra calculado para um desfecho de diferença de taxas de resolução, e não para equivalência de segurança, também limitam a interpretação dos dados de eventos adversos.

Para o pediatra

O estudo descreve crianças pequenas, com média de cerca de 2 anos, com otite média aguda unilateral, membrana timpânica íntegra e quadro doloroso: a dor basal média foi de cerca de 6 em 10, e quase metade tinha dor grave. Nesse grupo, quem recebeu também as gotas de ciprofloxacino relatou menos dor a partir do segundo dia e precisou de menos analgésico ao longo dos 10 dias de acompanhamento. Os autores, porém, apresentam o resultado como preliminar e não como indicação para mudar a prescrição: o estudo foi feito em um único centro, sem confirmação microbiológica e sem registro público prévio, e eles afirmam explicitamente que os achados não devem ser lidos como apoio a mudanças nas diretrizes atuais, a cursos mais curtos de antibiótico sistêmico ou a estratégias de uso racional de antibióticos.

Para o especialista

O ensaio acrescenta a primeira avaliação randomizada, segundo os autores, do ciprofloxacino tópico como adjuvante ao antibiótico oral na otite média aguda com membrana íntegra, com ganho de cerca de 2 dias na mediana de resolução da dor e de 2 dias na da febre, além de menor consumo de analgésicos. O desenho aberto, unicêntrico, com avaliação de dor por procurador na maioria dos participantes, sem timpanocentese nem medida de concentração do fármaco na orelha média, e sem registro prospectivo em plataforma pública, sustenta apenas evidência geradora de hipóteses; os próprios autores não recomendam alterar diretrizes, encurtar antibioticoterapia sistêmica ou adotar a combinação como estratégia de stewardship. O próximo passo que propõem são estudos maiores com desfechos microbiológicos, amostragem de líquido da orelha média quando viável e avaliação de recorrência em curto e longo prazos.

Referência

Ghadban E, Boutros T, Romani D et al.. Topical Ciprofloxacin for Non-Perforated Acute Otitis Media: A Randomized Controlled Trial. Laryngoscope Investig Otolaryngol 2026.

DOI: 10.1002/lio2.70612 · PubMed: 42921164

Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY-NC-ND.

Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.

Fonte: Laryngoscope Investigative Otolaryngology · doi.org

Como esta matéria foi feita

Matéria redigida com auxílio de inteligência artificial (IA) a partir da fonte original (o texto indicado em “Texto lido”) e selecionada automaticamente: a IA resumiu o estudo, extraiu população, desenho, principal limitação e conflitos declarados, graduou se ele muda algo agora e apontou o que se transfere ao contexto brasileiro. O editor responsável, Andrey Barbosa Pimenta, acompanha o que vai ao ar e corrige quando necessário; correções de substância são registradas no fim da página, com a data, o que mudou e por quê.

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