Em crianças com fibrose cística, rigidez e supervisão parental associam-se a menor força muscular inspiratória: estudo transversal com 35 crianças
Em crianças com fibrose cística, rigidez e supervisão parental associam-se a menor força muscular inspiratória
Em estudo transversal retrospectivo com 35 crianças com fibrose cística (média de 10,62 ± 3,29 anos), rigidez e supervisão parental correlacionaram-se negativamente com PEF, MIP e MEP absolutos (r = -0,627 a -0,728).
Estudo transversal com 35 crianças encontrou correlação negativa entre estilo parental rígido e pressões inspiratórias e expiratórias máximas, sem relação independente com o VEF1.
Um estudo transversal retrospectivo avaliou 35 crianças com fibrose cística (19 meninas, 16 meninos, média de 10,62 ± 3,29 anos) para investigar se atitudes parentais e apoio social percebido se associam a capacidade de exercício, função pulmonar e força muscular respiratória. Os participantes realizaram o Modified Shuttle Walk Test (MSWT), espirometria, medidas de pressão inspiratória máxima (MIP) e expiratória máxima (MEP) e responderam a escalas de apoio social percebido e de estilo parental. A rigidez e supervisão parental permaneceu negativamente correlacionada com PEF, MIP e MEP absolutos (r = -0,627 a -0,728; p < 0,001), e na regressão ajustada associou-se de forma independente a menor MIP% (β = -0,767; p = 0,003; R² ajustado = 0,368).
Contexto
Crianças com fibrose cística dependem de suporte parental essencial, e os autores partem da hipótese de que atitudes parentais e apoio social percebido possam influenciar desfechos funcionais. O estudo buscou examinar, nesse grupo, as associações entre estilo parental, apoio social percebido relacionado à atividade física, capacidade de exercício, função pulmonar e força muscular respiratória.
Como foi feito
Estudo transversal retrospectivo que incluiu 35 crianças com fibrose cística, 19 do sexo feminino e 16 do masculino, com média de idade de 10,62 ± 3,29 anos. Os participantes foram submetidos ao Modified Shuttle Walk Test (MSWT), à espirometria e a testes de força muscular respiratória com medida da pressão inspiratória máxima (MIP) e da pressão expiratória máxima (MEP), além de responderem à Perceived Social Support Scale (PSSS) e à Parenting Style Scale (PSS). Foram realizadas análises de correlação de Pearson e regressão linear multivariável, com ajuste para comparações múltiplas pelo procedimento de Benjamini-Hochberg. O resumo não informa o local, o período do estudo nem o tempo de seguimento.
O que encontraram
As correlações entre apoio social percebido relacionado à atividade física e os desfechos funcionais não permaneceram significativas após a correção de Benjamini-Hochberg. Já a rigidez e supervisão parental manteve correlação negativa com os valores absolutos de PEF, MIP e MEP (r entre -0,627 e -0,728; todos com p < 0,001), mas não com os valores percentuais do previsto. Na análise de regressão ajustada, o apoio social total percebido associou-se positivamente ao MSWT% (β = 0,439; p = 0,014), embora o modelo global não tenha atingido significância estatística (p = 0,059). A rigidez e supervisão parental associou-se de forma independente a menor MIP% (β = -0,767; p = 0,003; R² ajustado = 0,368), e nenhuma das duas variáveis se associou de forma independente ao VEF1% (ambos com p > 0,05). O resumo não relata complicações ou eventos adversos.
Limitações
Trata-se de estudo transversal retrospectivo, de amostra pequena (35 crianças), o que limita o poder estatístico e impede inferência causal sobre as associações observadas. O desenho transversal não permite estabelecer a direção da relação entre estilo parental e força muscular respiratória. Os autores reconhecem a necessidade de investigação em amostras maiores. O resumo não informa o local nem o período de recrutamento, e o ajuste para comparações múltiplas alterou a significância de parte das correlações inicialmente encontradas.
Para o pediatra
O estudo chama atenção para o fato de que, além do acompanhamento pulmonar e nutricional de rotina, o contexto familiar aparece associado a desfechos funcionais em crianças com fibrose cística. Nesta amostra, um estilo parental mais rígido e com maior supervisão associou-se a menores pressões inspiratórias e expiratórias máximas, enquanto o apoio social percebido relacionado à atividade física não manteve correlação significativa com os desfechos após ajuste estatístico. São associações observadas em um grupo pequeno, sem relação de causa, mas que podem ser lembradas ao se discutir adesão e manejo da doença com as famílias.
Para o especialista
Os achados acrescentam a dimensão do estilo parental à avaliação funcional da fibrose cística pediátrica: a rigidez e supervisão parental associou-se de forma independente a menor MIP% em modelo ajustado, sem relação independente com VEF1%, sugerindo que fatores psicossociais podem se refletir mais na força muscular respiratória do que na função pulmonar medida pela espirometria. O apoio social percebido mostrou associação com MSWT% apenas no modelo individual, com modelo global não significativo. O desenho transversal, retrospectivo e de centro único provável, com 35 participantes e ajuste para comparações múltiplas, permite apenas gerar hipóteses e não sustenta mudança de conduta.
Referência
Fidanoglu V, Selcuk Z, Saka S et al.. Beyond the Lungs: Social and Parental Factors Associated With Exercise Capacity and Respiratory Muscle Strength in Children With Cystic Fibrosis. Pediatr Pulmonol 2026.
DOI: 10.1002/ppul.71898 · PubMed: 42961339
Acesso: o artigo completo é pago na editora. Autores costumam enviar uma cópia a quem pede pelo e-mail de correspondência indicado no artigo.
Matéria escrita pelo Fôlego a partir do resumo publicado.
Fonte: Pediatric Pulmonology · doi.org