Enterovírus D68 associado a bronquite plástica e pneumonia grave em menina de 11 anos: relato de caso com remoção de moldes por broncoscopia flexível
Enterovírus D68 é associado a bronquite plástica e pneumonia grave em criança de 11 anos
Uma menina de 11 anos previamente saudável desenvolveu bronquite plástica e pneumonia grave por enterovírus D68 (EV-D68), com co-detecção de rinovírus no lavado broncoalveolar, e recuperou-se completamente em 16 dias após duas broncoscopias flexíveis com remoção de moldes, imunoglobulina intravenosa e metilprednisolona.
Relato descreve o primeiro caso documentado de bronquite plástica por EV-D68, com remoção de moldes por broncoscopia flexível e recuperação completa em 16 dias.
Um relato de caso descreve uma menina de 11 anos previamente saudável que desenvolveu bronquite plástica e pneumonia grave causadas por enterovírus D68 (EV-D68), com co-detecção de rinovírus no lavado broncoalveolar. A criança apresentou tosse e sibilância por 1 dia e dor torácica por meio dia, com saturação periférica de 90%–94% e acidose respiratória e metabólica na gasometria. Duas broncoscopias flexíveis com remoção de moldes brônquicos e lavado broncoalveolar, associadas a imunoglobulina intravenosa e metilprednisolona, levaram à recuperação clínica completa em 16 dias. Os autores afirmam que este é o primeiro caso documentado de bronquite plástica associada ao EV-D68.
Contexto
O EV-D68 manteve circulação esporádica desde seu isolamento em 1962 até o surto norte-americano de 2014, quando passou a ser reconhecido como causa de doença respiratória grave em crianças, incluindo casos que exigem terapia intensiva. O vírus também é uma das principais causas de mielite flácida aguda, mas seu potencial de desencadear doença grave das vias aéreas inferiores com formação de moldes permanece pouco reconhecido. A bronquite plástica é uma síndrome rara, caracterizada pela formação de moldes arboriformes ou tubulares dentro dos brônquios, que causam obstrução e disfunção ventilatória, classificada em tipo linfático e tipo eosinofílico. Em crianças, a bronquite plástica está mais frequentemente associada a infecções respiratórias, desregulação imunológica, malformações congênitas das vias aéreas, pós-operatório de cardiopatia congênita, distúrbios linfáticos e asma. Segundo os autores, a associação entre EV-D68 e bronquite plástica não havia sido relatada diretamente e permanece no estágio de relato de caso com hipótese mecanística, à espera de validação em estudos multicêntricos.
Como foi feito
Trata-se de um relato de caso de uma menina de 11 anos, previamente saudável, atendida com tosse e sibilância havia 1 dia e dor torácica havia meio dia, com achados de imagem e broncoscopia descritos em detalhe. Para identificar outros casos e caracterizar a condição, os autores fizeram uma busca sistemática nas bases PubMed, Embase e Web of Science, de janeiro de 2006 a junho de 2026, com os termos EV-D68, bronquite plástica, pneumonia grave, molde brônquico, plugs de muco, escarro moldado, expectoração plástica e insuficiência respiratória. Os critérios de inclusão foram infecção respiratória confirmada por EV-D68, diagnóstico clínico de pneumonia grave ou bronquite plástica, confirmação microbiológica e idade até 18 anos. A busca recuperou 156 artigos, dos quais 28 descreviam diretamente pneumonia grave associada ao EV-D68, e nenhum mencionava manejo broncoscópico terapêutico das vias aéreas, como remoção de moldes.
O que encontraram
A paciente apresentava tosse produtiva com escarro espesso e difícil de expectorar, dispneia, rinorreia e dor torácica, sem febre. Na admissão, a temperatura era 36,5 °C, a frequência cardíaca 120 bpm, a frequência respiratória 30 irpm, a saturação periférica de oxigênio 90%–94%, a pressão arterial 100/70 mmHg e o peso 45 kg; os murmúrios vesiculares estavam levemente diminuídos à esquerda, sem estertores. A tomografia de tórax mostrou opacidades em faixa no lobo superior esquerdo com redução do volume lobar, pequenas opacidades nodulares nos lobos inferior esquerdo e inferior direito e espessamento pleural à direita. A gasometria em ar ambiente indicou insuficiência respiratória tipo II com acidose respiratória combinada à acidose metabólica. Hemograma, proteína C reativa, procalcitonina, coagulação, biomarcadores cardíacos e transaminases estavam dentro da normalidade, e a pesquisa de Mycoplasma pneumoniae por ácido nucleico em swab de orofaringe foi negativa.
Na broncoscopia flexível do segundo dia de internação, havia secreção amarelada e viscosa no brônquio intermediário direito e no brônquio segmentar basal medial do lobo inferior direito, e um molde de escarro em faixa obstruindo o brônquio principal esquerdo de forma incompleta, além de moldes obstruindo quase completamente a abertura do brônquio do lobo superior esquerdo e brônquios subsegmentares. Após aspiração e lavado broncoalveolar, todos os brônquios segmentares ficaram pérvios, com hiperemia difusa da mucosa brônquica em todos os segmentos e subsegmentos, sem erosão, sangramento ou pseudomembranas. O diagnóstico broncoscópico foi bronquite plástica. A sequenciamento de nova geração direcionado (tNGS) do lavado broncoalveolar detectou EV-D68 e rinovírus, com contagem de leituras de 436.084 para o EV-D68 e 131.063 para o rinovírus; as culturas bacterianas de lavado e de sangue foram negativas. O exame histopatológico dos moldes mostrou debris necróticos com histiócitos, linfócitos, eosinófilos e abundantes neutrófilos.
A paciente recebeu imunoglobulina intravenosa em dose total de 1,5 g/kg em 2 dias (1 g/kg + 0,5 g/kg) e metilprednisolona intravenosa por 10 dias, com desmame escalonado, além de ambroxol, budesonida nebulizada com acetilcisteína inalada e calcitriol com carbonato de cálcio. Inicialmente usou doxiciclina empírica, trocada por ceftriaxona no sexto dia, diante da possibilidade de coinfecção bacteriana. Uma segunda broncoscopia flexível com lavado foi realizada no sexto dia, com aspiração de secreções e moldes dos brônquios do lobo inferior direito, lobo médio direito, lobo inferior esquerdo e segmentos basais. A paciente manteve saturação normal em cateter nasal, teve a oxigenoterapia suspensa no oitavo dia e recebeu alta no décimo dia, com tomografia de controle mostrando resolução das opacidades do lobo superior esquerdo com reexpansão, opacidades residuais no lobo inferior esquerdo e pequeno derrame pleural à esquerda. Seis dias após a alta, nova tomografia mostrou resolução completa dos infiltrados e derrames, com exame neurológico normal e ausência de déficits. O tratamento total durou 16 dias, sendo 10 de internação e 6 de medicação oral após a alta.
Limitações
Os próprios autores reconhecem que se trata de uma observação de caso único, cujos achados precisam de validação em estudos multicêntricos com coortes maiores para estabelecer a incidência real e os fatores de risco da bronquite plástica associada ao EV-D68. A associação permanece no estágio de relato de caso com hipótese mecanística, sem evidência direta de modelos animais de bronquite plástica por EV-D68. A revisão da literatura não encontrou casos previamente confirmados, o que impede estimar frequência ou comparar condutas. O caso também levanta dúvidas não resolvidas sobre a antibioticoterapia empírica, já que não se pode excluir coinfecção bacteriana diante do escarro amarelado e dos estertores persistentes.
Para o pediatra
O caso descreve uma escolar de 11 anos previamente saudável que evoluiu em poucos dias de tosse e sibilância para desconforto respiratório com saturação de 90%–94%, dor torácica e insuficiência respiratória tipo II, sem febre e sem alteração dos marcadores inflamatórios. A tomografia mostrou consolidação com redução de volume lobar, e a broncoscopia revelou moldes brônquicos obstrutivos. Os autores chamam a atenção para o fato de que consolidação pulmonar extensa não é exclusiva de Mycoplasma e bactérias, e etiologias virais não devem ser esquecidas. Diante de início súbito, doença de curta duração, progressão rápida e dispneia predominante, excluídas outras causas de desconforto respiratório, os autores consideram justificada alta suspeita clínica de bronquite plástica ou de obstrução extensa por muco. Também recomendam vigilância para sintomas neurológicos em infecções graves por EV-D68, embora esta paciente não tenha desenvolvido mielite flácida aguda.
Para o especialista
O relato acrescenta ao espectro conhecido do EV-D68 a possibilidade de bronquite plástica em crianças escolares previamente saudáveis, com obstrução brônquica documentada por broncoscopia e confirmação etiológica por tNGS do lavado broncoalveolar. Os autores descrevem três achados que consideram centrais: o EV-D68 pode induzir bronquite plástica com obstrução de vias aéreas e insuficiência respiratória; diante de progressão rápida com hipoxemia e piora radiológica, a broncoscopia precoce com remoção dos moldes e identificação do patógeno por tNGS é considerada fundamental; e a recuperação completa após 16 dias de tratamento combinando lavados broncoscópicos repetidos, imunoglobulina intravenosa e metilprednisolona sugere que a intervenção multimodal agressiva pode ser determinante. Os autores propõem três mecanismos interligados para a formação dos moldes: lesão epitelial direta com prejuízo do clearance mucociliar, hipersecreção de muco por ativação de NF-κB e transcrição de MUC5AC, e cascata inflamatória com armadilhas extracelulares de neutrófilos e degranulação de eosinófilos. O grau de confiança é o de um relato de caso único com hipótese mecanística, sem padronização terapêutica estabelecida; os autores defendem estudos prospectivos para definir protocolos de lavado broncoscópico, imunoglobulina e glicocorticoide, além de protocolos padronizados de avaliação broncoscópica em casos graves de EV-D68.
Referência
Lin C, Tian T, Hao Z et al.. Enterovirus D68 infection causing plastic bronchitis and severe pneumonia: a case report and literature review. Front Med (Lausanne) 2026.
DOI: 10.3389/fmed.2026.1977512 · PubMed: 42964139
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Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.
Fonte: Frontiers in Medicine · doi.org