Traqueíte em até 30 dias após traqueostomia pediátrica atinge 11,3% e associa-se a mais pneumonia e sepse
Análise do banco NSQIP-P com 5.784 traqueostomias em crianças mostrou traqueíte precoce em 652 casos (11,3%), em média 11 ± 8 dias após a cirurgia, com internações mais longas. Corticoide pré-operatório, suporte nutricional e comorbidades cardíacas associaram-se a maior risco, com persistência após estratificação por ASA e ponderação por escore de propensão. Crianças com traqueíte tiveram mais pneumonia (11,5% vs 4,6%) e sepse (20,7% vs 4,3%), todos com p < 0,001.
A análise do NSQIP-P estima a traqueíte precoce em 11,3% e aponta fatores de risco pré e pós-operatórios, o que ajuda a definir quem vigiar de perto no primeiro mês após a traqueostomia infantil.
Análise do banco NSQIP-P com 5.784 traqueostomias em crianças mostrou traqueíte precoce em 652 casos, com média de 11 dias após a cirurgia, e internações mais longas.
Uma análise do banco de dados NSQIP-P, referente ao período de 2019 a 2023, avaliou crianças submetidas a traqueostomia para identificar preditores e desfechos de traqueíte nos primeiros 30 dias de pós-operatório. Entre 5.784 traqueostomias, 652 (11,3%) desenvolveram traqueíte, em média 11 ± 8 dias após a cirurgia. Uso de corticoide no pré-operatório, suporte nutricional, comorbidades cardíacas e intubação pós-operatória não planejada associaram-se a maior risco nas análises não ajustadas, e as associações para corticoide, suporte nutricional e comorbidades cardíacas persistiram em análises estratificadas por ASA e em modelos ponderados por escore de propensão. Crianças com traqueíte tiveram taxas mais altas de pneumonia (11,5% vs 4,6%) e sepse (20,7% vs 4,3%), além de internações mais longas (todos com p < 0,001).
Contexto
A traqueíte associada à traqueostomia é uma complicação pós-operatória comum em crianças, mas sua incidência precoce e seus fatores de risco ainda são pouco definidos. O estudo teve como objetivo identificar preditores e desfechos da traqueíte dentro de 30 dias após a traqueostomia pediátrica.
Como foi feito
Trata-se de análise do banco de dados NSQIP-P, de 2019 a 2023, com crianças submetidas a traqueostomia. A traqueíte pós-operatória em 30 dias foi definida por novas culturas traqueais positivas e tratamento antibiótico. As associações com variáveis demográficas e clínicas foram avaliadas por regressão de Poisson com variância robusta para estimar razões de risco ajustadas, com ponderação por escore de propensão e análises estratificadas para avaliar o impacto da gravidade basal da doença.
O que encontraram
Foram incluídas 5.784 traqueostomias, das quais 652 (11,3%) evoluíram com traqueíte, em média 11 ± 8 dias após o procedimento. Nas análises não ajustadas, uso de corticoide no pré-operatório (excluindo dose única), suporte nutricional, comorbidades cardíacas e intubação pós-operatória não planejada associaram-se a maior risco de traqueíte. As associações para uso de corticoide, suporte nutricional e comorbidades cardíacas persistiram nas análises estratificadas por ASA e nos modelos ponderados por escore de propensão específicos para cada exposição. Idade, idade gestacional, classificação ASA e doença pulmonar crônica não se mostraram independentemente associadas. Pacientes com traqueíte apresentaram taxas mais elevadas de pneumonia (11,5% vs 4,6%) e sepse (20,7% vs 4,3%), bem como internações mais longas, com p < 0,001 para todos os desfechos.
Limitações
O estudo é retrospectivo, baseado em banco de dados administrativo (NSQIP-P), o que depende da acurácia do registro e não permite estabelecer causalidade, apenas associações. A definição de traqueíte exigiu cultura traqueal positiva e tratamento antibiótico, o que pode não capturar todos os casos e depende de prática de coleta e prescrição. O seguimento foi limitado a 30 dias, e não há informação sobre desfechos de médio e longo prazo. A gravidade basal foi controlada por classificação ASA, escore de propensão e análises estratificadas, mas pode haver confundimento residual por variáveis não medidas.
Para o pediatra
O estudo mostra que cerca de uma em cada nove crianças submetidas a traqueostomia desenvolve traqueíte nos primeiros 30 dias, em média por volta de 11 dias após a cirurgia. Crianças com uso de corticoide antes do procedimento, necessidade de suporte nutricional, comorbidades cardíacas ou intubação não planejada no pós-operatório tiveram maior risco. A traqueíte associou-se a mais pneumonia, mais sepse e internações mais longas, o que reforça a importância de reconhecer precocemente sinais respiratórios e infecciosos nesse período.
Para o especialista
A análise do NSQIP-P acrescenta estimativas de incidência precoce (11,3% em 30 dias) e identifica fatores de risco pré e pós-operatórios associados à traqueíte, com persistência das associações para corticoide pré-operatório, suporte nutricional e comorbidades cardíacas após estratificação por ASA e ponderação por escore de propensão. O desenho retrospectivo de banco de dados permite associação, não causalidade, e a definição baseada em cultura e antibiótico limita a comparabilidade. Os achados podem orientar esforços de prevenção e melhoria de qualidade em pacientes de maior risco, mas não estabelecem conduta profilática.
Referência
Larson J, Lavin J, Rowland M et al.. Tracheitis after pediatric tracheostomy: A NSQIP analysis. Int J Pediatr Otorhinolaryngol 2026.
DOI: 10.1016/j.ijporl.2026.112853 · PubMed: 42215001
Acesso: o artigo completo é pago na editora. Autores costumam enviar uma cópia a quem pede pelo e-mail de correspondência indicado no artigo.
Matéria escrita pelo Fôlego a partir do resumo publicado.
Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org