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PubMed · matérias do Fôlego· Rana S·· há 4 dias

Síndrome de Fraser: reconhecer na vida fetal e preparar a via aérea ao nascer — revisão narrativa

Síndrome de Fraser: reconhecer na vida fetal e preparar a via aérea ao nascer

Resumo por IA

Revisão narrativa publicada na Cureus sintetiza a literatura sobre a síndrome de Fraser e orienta o reconhecimento pré-natal e o preparo da via aérea ao nascer.

Texto

Revisão narrativa reúne pistas pré-natais, risco de intubação impossível e cuidados multidisciplinares ao longo da vida na síndrome de Fraser.

Revisão narrativa publicada na Cureus sintetiza a literatura sobre a síndrome de Fraser, doença autossômica recessiva rara marcada por criptoftalmo, sindactilia e anomalias respiratórias, renais, geniturinárias e craniofaciais. No período pré-natal, a combinação de oligodrâmnio, agenesia renal e sinais de obstrução alta da via aérea (CHAOS) deve levantar a suspeita, embora sindactilia e alterações oculares raramente sejam vistas no ultrassom. Ao nascer, anomalias laríngeas e subglóticas podem tornar a intubação traqueal difícil ou impossível, e uma série de 125 anestesias em 10 crianças com a síndrome registrou 10 complicações, todas relacionadas à via aérea.

Contexto

A síndrome de Fraser, também chamada de síndrome criptoftalmo-sindactilia, afeta múltiplos sistemas e tem apresentação muito variável. Em revisão de 117 casos publicados, Slavotinek e Tifft encontraram criptoftalmo em 103 (88%), sindactilia em 72 (61,5%), anomalias de orelha em 69 (59%), agenesia renal em 53 (45,3%) e genitália ambígua em 20 (17,1%). Van Haelst e colaboradores, em 59 indivíduos, incorporaram as anomalias urinárias e de via aérea entre os critérios maiores revisados, que hoje incluem sindactilia, espectro do criptoftalmo, genitália ambígua, anomalias do trato urinário, anomalias laríngeas ou traqueais e história familiar positiva; o diagnóstico é firmado com três critérios maiores, dois maiores e dois menores, ou um maior e três menores.

Dados populacionais do EUROCAT, com 12.886.464 nascimentos, identificaram 26 casos, prevalência mínima estimada de 0,20 por 100.000 nascimentos: 10/26 (38%) nasceram vivos, 14/26 (54%) tiveram a gestação interrompida após detecção pré-natal de anomalia grave e 2/26 (8%) foram natimortos. Consanguinidade foi relatada em 29/119 casos (24,8%) por Slavotinek e Tifft e em 41% dos casos na revisão de Pham e colaboradores. Variantes patogênicas em FRAS1, FREM2 e GRIP1 estão implicadas, e o padrão autossômico recessivo implica risco de recorrência de 25% por gestação quando ambos os pais são portadores.

Como foi feito

Trata-se de revisão narrativa, não sistemática, com busca no PubMed desde a criação da base até setembro de 2026. A busca principal, com os termos "Fraser syndrome" ou "cryptophthalmos-syndactyly syndrome", recuperou 257 registros, e buscas adicionais combinaram a síndrome com diagnóstico pré-natal, genética, via aérea e perioperatório, anomalias renais, oftalmologia, manifestações dentárias e craniofaciais, reabilitação e desfechos de longo prazo. Foram considerados revisões, estudos observacionais, séries de casos e relatos clinicamente informativos, dada a raridade da doença, sem restrição formal de data de publicação. Por ser narrativa, não houve meta-análise nem avaliação formal de risco de viés.

O que encontraram

No diagnóstico pré-natal, Tessier e colaboradores avaliaram 38 casos e encontraram anomalias renais em 37, criptoftalmo em 36 e anomalias de via aérea em 30 dos 37 casos avaliáveis. Entre 26 gestações com informação ultrassonográfica disponível, oligodrâmnio foi detectado em 22, anomalias renais em 20 e sinais de obstrução alta da via aérea em 11; sindactilia e alterações oftalmológicas foram muito menos reconhecidas antes do nascimento. Os autores concluíram que a associação de oligodrâmnio, agenesia renal e CHAOS deve levar à consideração da síndrome de Fraser, associação reforçada por casos confirmados molecularmente, como um feto com CHAOS e agenesia renal que apresentou variantes compostas em heterozigose no FREM2.

O principal conjunto de dados perioperatórios vem de Mathers e colaboradores, que revisaram retrospectivamente 125 anestesias gerais realizadas em 10 crianças com síndrome de Fraser ao longo de 30 anos. Foram identificadas 10 complicações anestésicas, todas relacionadas à via aérea: obstrução, extubação acidental, sangramento pós-traqueostomia, intubação difícil e uma intubação impossível que exigiu traqueostomia de emergência. Intubação traqueal difícil ou impossível ocorreu em 2 das 10 crianças (20%), principalmente por estenose glótica. Relatos isolados descrevem criança com estenose subglótica cuja intubação não teve sucesso e exigiu traqueostomia, e lactente com estenose grave por membrana glótica congênita que precisou de via aérea cirúrgica.

Na oftalmologia, Das e colaboradores estudaram retrospectivamente 15 pacientes de um centro terciário: o acometimento bilateral foi mais frequente que o unilateral e o criptoftalmo abortivo foi o subtipo mais comum. Criptoftalmo completo associou-se a globos císticos, enquanto a forma abortiva frequentemente envolvia simbléfaro; alguns pacientes com criptoftalmo abortivo foram submetidos a correção de coloboma por motivo estético, e tentativas de reconstrução palpebral e da superfície ocular foram consideradas em casos completos selecionados.

Kunz e colaboradores avaliaram radiografias dentárias de 10 pacientes não aparentados e identificaram alterações dentárias em todos, incluindo hipodontia, apinhamento, dentes retidos e padrão característico de raízes de dentes permanentes encurtadas. Amornvit e colaboradores descreveram um paciente de 21 anos com anomalias craniofaciais e dentes ausentes submetido a reabilitação protética com próteses overlay fabricadas por CAD/CAM, com melhora funcional e estética no seguimento. Sobre sobrevida, Koprulu e colaboradores relataram um menino de 15,5 anos com síndrome de Fraser tipo 3 e variante truncante homozigótica no GRIP1, com criptoftalmo, sindactilia, anomalias craniofaciais e agenesia do rim direito, mas sem comprometimento respiratório, genital, anorretal ou umbilical clinicamente significativo; Impallomeni e colaboradores descreveram o caso de uma mulher de 96 anos com a síndrome.

Limitações

Os próprios autores apontam que a principal limitação é a raridade da doença: a maior parte da evidência vem de relatos de caso, pequenas séries, estudos retrospectivos e revisões narrativas, com números reduzidos mesmo nas publicações maiores, o que dificulta comparações robustas entre intervenções. Provável viés de publicação favorece casos graves, incomuns ou tratados com sucesso, enquanto fenótipos mais leves podem ser subnotificados; casos fetais com anomalias letais podem ser reconhecidos apenas após interrupção da gestação, natimorto ou exame post mortem. A heterogeneidade fenotípica e genética impede extrapolar condutas de um paciente com agenesia renal unilateral e pouco comprometimento de via aérea para um feto com anomalias renais bilaterais e CHAOS grave, e relatos isolados de sucesso não devem ser lidos como recomendações universais. O reconhecimento pré-natal permanece incompleto, e a revisão, por ser narrativa, não fez avaliação formal de risco de viés nem meta-análise.

Para o pediatra

A síndrome de Fraser é rara, mas o pediatra pode ser o primeiro a reunir os achados que levantam a suspeita: criptoftalmo, sindactilia cutânea, genitália ambígua, anomalias do trato urinário, alterações laríngeas ou traqueais e história familiar positiva compõem os critérios maiores revisados. No período neonatal, o ponto de maior risco é a via aérea: estridor, obstrução respiratória, dificuldade de intubação ou traqueostomia prévia devem ser valorizados antes de qualquer procedimento, porque a ausência de anomalias externas evidentes não exclui patologia laríngea significativa. A revisão também chama atenção para necessidades que aparecem mais tarde, como avaliação oftalmológica detalhada, alterações dentárias presentes em todos os 10 pacientes de uma série radiológica e acompanhamento renal, reforçando que o seguimento não se encerra na correção das anomalias potencialmente fatais do período neonatal.

Para o especialista

Para quem maneja a via aérea, a revisão sustenta que a síndrome de Fraser deve entrar no planejamento anestésico como via aérea potencialmente difícil: na série de 125 anestesias em 10 crianças, todas as 10 complicações foram respiratórias e 20% das crianças tiveram intubação difícil ou impossível, sobretudo por estenose glótica, o que reforça avaliação pré-anestésica cuidadosa, disponibilidade de equipamento de via aérea difícil e envolvimento precoce da otorrinolaringologia. A evidência disponível não apoia uma estratégia única de via aérea, e o planejamento deve ser guiado pela anatomia de cada paciente. No pré-natal, a tríade oligodrâmnio, agenesia renal e CHAOS é a pista mais útil, e casos graves com CHAOS podem demandar planejamento perinatal especializado, incluindo descompressão traqueal fetoscópica e EXIT em centros de terapia fetal. O grau de confiança é limitado: são séries retrospectivas pequenas, relatos de caso e revisão narrativa, sem grupo controle, o que impede recomendações padronizadas e favorece cuidado dirigido ao fenótipo, com registros multicêntricos apontados como caminho para evidência comparativa.

Referência

Rana S. Fraser Syndrome From Prenatal Diagnosis to Multidisciplinary Management and Long-Term Care: A Narrative Review. Cureus 2026.

DOI: 10.7759/cureus.116461 · PubMed: 42894799

Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY.

Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.

Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org