Pular para o conteúdo

A literatura que muda a conduta, toda segunda

International Archives of Otorhinolaryngology· Pereira EB, Ribeiro GE, da Silva DPC·· há 8 dias

Revisão sistemática: reflexo acústico alterado é mais frequente em crianças com transtorno do processamento auditivo central, mas não confirma o diagnóstico

Reflexo acústico alterado é mais frequente em crianças com transtorno do processamento auditivo central, mas não confirma o diagnóstico

Resumo por IA

Revisão sistemática com seis estudos observacionais (crianças e adolescentes de 5 a 18 anos, Brasil, Canadá, Alemanha e Nova Zelândia) encontrou maior prevalência de reflexo acústico alterado no transtorno do processamento auditivo central (TPAC), mas não sustenta o exame como marcador diagnóstico.

EM UM MINUTO

O achado
Quatro de seis estudos transversais relataram maior prevalência de alterações do reflexo acústico em crianças e adolescentes com transtorno do processamento auditivo central, mas a evidência é heterogênea e insuficiente para uso diagnóstico.
Para quem importa
Fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas e pediatras que avaliam crianças com queixas de dificuldade auditiva, desatenção e problemas escolares.
Muda algo agora?
NãoGrau do que o próprio estudo sustenta, não uma recomendação do Fôlego.
Estágio da evidência
Artigo revisadoArtigo publicado em revista, após revisão por pares.
População
crianças e adolescentes de 5 a 18 anos · transtorno do processamento auditivo central e alterações do reflexo acústico · estudos realizados no Brasil, Canadá, Alemanha e Nova Zelândia, em contextos de avaliação audiológica não especificados
Desenho
Revisão sistemática (revisão sistemática de estudos observacionais transversais, com síntese qualitativa)
Principal limitação
Heterogeneidade dos protocolos de avaliação do reflexo acústico e do processamento auditivo entre os estudos, todos transversais e em sua maioria de qualidade metodológica moderada.
Texto lido
Texto completo aberto
Conflitos de interesse declarados
Os autores declaram não ter conflitos de interesse; declaram não ter recebido financiamento de agências públicas, privadas ou sem fins lucrativos.
O que se transfere ao contexto brasileiro
Dois dos seis estudos incluídos foram realizados no Brasil, o que indica presença da linha de pesquisa no país, mas os protocolos de avaliação do reflexo acústico e do processamento auditivo variaram entre os centros. A transposição para a prática depende da padronização local dessas baterias e da disponibilidade de avaliação audiológica completa.
Texto

Revisão sistemática de seis estudos observacionais encontrou mais alterações do reflexo acústico em crianças com transtorno do processamento auditivo central, porém com protocolos heterogêneos e evidência insuficiente para uso como marcador.

Uma revisão sistemática publicada no International Archives of Otorhinolaryngology avaliou se alterações do reflexo acústico estão associadas ao transtorno do processamento auditivo central (TPAC) em crianças e adolescentes. A busca, registrada no PROSPERO e conduzida conforme o PRISMA, partiu de 2.333 registros e incluiu seis estudos observacionais, realizados no Brasil, Canadá, Alemanha e Nova Zelândia, com participantes de 5 a 18 anos. Quatro estudos relataram maior prevalência de alterações do reflexo acústico em crianças com TPAC, enquanto um não encontrou diferença entre os grupos. Os autores concluem que a evidência é limitada e heterogênea e que os achados atuais não sustentam o reflexo acústico como marcador diagnóstico definitivo do TPAC.

Contexto

O processamento auditivo central reúne processos neurofisiológicos que permitem interpretar a informação sonora, incluindo localização e lateralização do som, discriminação auditiva, reconhecimento de padrões e de aspectos temporais, integração e mascaramento temporal e processamento de sinais competitivos ou degradados. O transtorno do processamento auditivo central caracteriza-se por déficits nesses processos não relacionados a perda auditiva ou comprometimento cognitivo, podendo afetar atenção, discriminação, reconhecimento e compreensão da informação auditiva, com repercussões na compreensão, no comportamento e no desempenho escolar.

O reflexo acústico do músculo estapédio depende da função timpano-ossicular e das vias auditivas aferente e eferente, e seu circuito neural é mediado por estruturas do tronco encefálico, em particular o complexo olivar superior, também essencial aos mecanismos do processamento auditivo central. Estudos anteriores já haviam investigado a relação entre alterações do reflexo acústico e o transtorno, sugerindo possível associação, o que motivou esta revisão.

Como foi feito

Revisão sistemática registrada no PROSPERO (CRD42023440214) e relatada conforme as diretrizes PRISMA 2020. A pergunta foi estruturada pelo framework PECOS: em crianças e adolescentes, existe associação entre reflexo acústico alterado e ocorrência de transtorno do processamento auditivo central? Foram incluídos estudos observacionais em crianças e adolescentes que avaliassem essa associação. Entre os critérios de exclusão estavam outros desenhos de estudo, medidas não tradicionais do reflexo acústico, amostras com adultos ou idosos, transtorno associado a outras condições, análise limitada à presença do reflexo, ausência de comparação entre reflexo e transtorno, falta de relato de idade, resumos de congresso, editoriais e revisões, e estudos com apenas um teste de processamento auditivo.

A busca foi realizada em 18 de outubro de 2023, sem restrição de idioma ou de ano de publicação, em PubMed/MEDLINE, LILACS, Scopus, Web of Science, Embase, ProQuest, LIVIVO e Google Scholar, incluindo literatura cinzenta, com rastreamento de citações pelo CitationChaser. Três revisores fizeram a triagem independente de títulos e resumos e, depois, do texto completo, com resolução de conflitos por consenso. Dois revisores extraíram os dados e avaliaram a qualidade metodológica pela lista do Joanna Briggs Institute (JBI) para estudos transversais analíticos, classificando a qualidade como baixa, moderada ou alta.

O que encontraram

Dos 2.333 registros identificados, 623 eram duplicados e 1.710 foram triados por título e resumo. Vinte e dois estudos foram selecionados para leitura do texto completo, 15 foram excluídos e cinco permaneceram elegíveis; um estudo adicional foi identificado pelo rastreamento de citações, totalizando seis estudos na síntese qualitativa. Os estudos foram conduzidos no Brasil (dois), no Canadá (dois), na Alemanha (um) e na Nova Zelândia (um), com participantes de 5 a 18 anos. Todos eram transversais, com protocolos de coleta e de avaliação variáveis entre os grupos de pesquisa.

Quatro estudos relataram maior prevalência de alterações do reflexo acústico, como limiares elevados ou respostas ausentes, em crianças com transtorno do processamento auditivo central. Smart et al. (2019) observaram limiares de reflexo significativamente mais altos no grupo de estudo na frequência de 2.000 Hz na condição contralateral e proporção significativamente maior de reflexos anormais em relação aos controles (26% versus 3%). Meneguello et al. (2001) relataram que, entre os indivíduos com transtorno, 62% apresentavam alterações do reflexo, com alteração significativa nos casos de transtorno grave, em déficits de decodificação, codificação e/ou organização e em múltiplas habilidades auditivas comprometidas. Attoni et al. (2010) encontraram reflexo alterado em todas as crianças com transtorno fonológico. Saxena et al. (2015) descreveram funções de crescimento do reflexo mais planas no transtorno, sobretudo na condição contralateral.

Em contraste, Kunze et al. (2017) não encontraram diferenças significativas entre crianças com e sem transtorno quanto à ocorrência ou aos valores de limiar do reflexo acústico, concluindo pela falta de utilidade clínica do reflexo para distinguir os grupos. Os tamanhos amostrais variaram bastante, do menor grupo experimental (22 crianças, Attoni et al., 2010) à maior amostra com transtorno (68 participantes, Meneguello et al., 2001).

Quanto à qualidade metodológica, apenas um estudo foi classificado como de alta qualidade (Smart et al., 2019); os outros cinco foram de qualidade moderada, com limitações atribuídas à falta de identificação de fatores de confusão potenciais e à ausência de estratégias para lidar com eles nos grupos investigados.

Limitações

Os próprios autores apontam que a heterogeneidade das amostras, dos métodos de avaliação e das comorbidades limita a interpretação e a generalização dos achados. Os protocolos de avaliação do reflexo acústico diferiram entre os estudos quanto às frequências testadas (500, 1.000, 2.000 e 4.000 Hz em alguns; apenas 1.000 e 2.000 Hz em outro), à condição ipsilateral ou contralateral (um estudo avaliou somente a contralateral), à intensidade do estímulo (100 a 110 dB HL ou não especificada) e aos critérios de normalidade e de ausência do reflexo. A avaliação do processamento auditivo também variou, com baterias comportamentais distintas, e a maioria dos estudos era de qualidade metodológica moderada, com risco de viés sistemático. Todos os estudos incluídos são transversais, o que permite falar de associação, não de causalidade, e a síntese é qualitativa, sem metanálise.

Para o pediatra

O estudo reúne evidências de que crianças e adolescentes com transtorno do processamento auditivo central podem apresentar com mais frequência alterações do reflexo acústico, mas essa relação não é consistente entre os estudos e não confirma o diagnóstico. Entre as queixas descritas nos estudos incluídos estão dificuldades de leitura e escrita, desatenção, dificuldade para ouvir em ambiente ruidoso e para compreender fala não familiar. Os autores destacam que o transtorno costuma coexistir com outras condições do neurodesenvolvimento, o que aumenta a heterogeneidade e reforça a necessidade de avaliação abrangente, incluindo linguagem, cognição e função auditiva eferente.

Para o especialista

A revisão organiza o panorama atual da associação entre reflexo acústico e transtorno do processamento auditivo central e mostra que, embora haja tendência de maior frequência de limiares elevados ou respostas ausentes nos pacientes com transtorno, os protocolos variam em frequências, condições (ipsilateral e contralateral), intensidades e critérios de normalidade, o que compromete a comparabilidade. Os autores não recomendam o reflexo acústico como marcador isolado e sugerem que a combinação de bateria comportamental padronizada, avaliação do reflexo e potenciais evocados auditivos pode oferecer avaliação mais abrangente. O grau de confiança é limitado pelo desenho transversal dos seis estudos, pela qualidade metodológica moderada na maioria e pela ausência de metanálise.

Referência

Pereira EB, Ribeiro GE, da Silva DPC. Association Between the Alteration of Acoustic Reflex and Central Auditory Processing Disorder in Children and Adolescents: A Systematic Review. Int Arch Otorhinolaryngol 2026.

DOI: 10.1055/a-2804-5151 · PubMed: 42921639

Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY.

Matéria escrita pelo Fôlego a partir do texto completo em acesso aberto.

Fonte: International Archives of Otorhinolaryngology · doi.org

Como esta matéria foi feita

Matéria redigida com auxílio de inteligência artificial (IA) a partir da fonte original (o texto indicado em “Texto lido”) e selecionada automaticamente: a IA resumiu o estudo, extraiu população, desenho, principal limitação e conflitos declarados, graduou se ele muda algo agora e apontou o que se transfere ao contexto brasileiro. O editor responsável, Andrey Barbosa Pimenta, acompanha o que vai ao ar e corrige quando necessário; correções de substância são registradas no fim da página, com a data, o que mudou e por quê.

Mande para quem vai gostar

Receba a edição semanal toda segunda-feira às 07:00, de graça. Assine grátis

Expediente: quem faz o jornal e como as matérias são escolhidas