Após correção de atresia de esôfago, crianças têm escores de autocuidado menores que controles saudáveis
Após correção de atresia de esôfago, lactentes mostram vulnerabilidade funcional em comunicação e cognição social
Um estudo comparativo com 37 crianças corrigidas de atresia de esôfago e 19 controles saudáveis, entre 11 e 40 meses, mostrou escores totais e de autocuidado menores no grupo operado pelo WIDEA-FS respondido pelos pais, independentemente da idade gestacional ou do subtipo cirúrgico (p < 0,05).
Escores do WIDEA-FS foram menores que os de controles saudáveis em autocuidado, e 86% das crianças com atresia de esôfago usaram intervenção precoce, sobretudo fisioterapia e terapia alimentar.
Um estudo comparou o desenvolvimento adaptativo e funcional de 37 crianças submetidas à correção de atresia de esôfago (23 com defeito de pequeno intervalo e 14 com defeito de longo intervalo, com ou sem fístula traqueoesofágica) com 19 controles saudáveis nascidos a termo, entre 11 e 40 meses de idade, usando o WIDEA-FS respondido pelos pais. As crianças operadas apresentaram escores totais e de autocuidado menores que os controles, independentemente da idade gestacional ou do subtipo cirúrgico (p < 0,05), sem diferenças em mobilidade, comunicação ou cognição social. Uma parcela apresentou vulnerabilidade em comunicação e cognição social, e a vulnerabilidade comunicativa ocorreu exclusivamente no grupo com atresia de esôfago. A concordância com preocupações registradas por clínicos foi moderada (sensibilidade 75%, especificidade 77%, valor preditivo negativo 97%), e 86% das crianças operadas recebiam serviços de intervenção precoce.
Contexto
A avaliação do neurodesenvolvimento após a correção de atresia de esôfago costuma apoiar-se em instrumentos aplicados por profissionais, e o resumo não detalha o que já se sabia sobre o uso de medidas funcionais relatadas pelos pais nessa população. O estudo parte da proposta de caracterizar o desenvolvimento adaptativo e funcional precoce com o WIDEA-FS, comparando crianças operadas a controles saudáveis e verificando a concordância desse instrumento com as preocupações documentadas pelos clínicos.
Como foi feito
Estudo comparativo com avaliações pelo WIDEA-FS obtidas de crianças nascidas pré-termo (n = 18) e a termo (n = 19) após correção de atresia de esôfago de pequeno intervalo (n = 23) ou de longo intervalo (n = 14), com ou sem fístula traqueoesofágica, e de controles saudáveis nascidos a termo (n = 19), entre 11 e 40 meses de idade. Foram comparados escores totais e por domínio (autocuidado, mobilidade, comunicação e cognição social) por meio de modelos lineares gerais e de análises estratificadas por idade, conforme a idade gestacional (termo versus pré-termo) e o subtipo cirúrgico (pequeno versus longo intervalo). A vulnerabilidade funcional foi classificada com critérios de referência publicados do WIDEA-FS e comparada às preocupações de desenvolvimento documentadas pelos clínicos; o uso de intervenção precoce também foi caracterizado na coorte de pacientes.
O que encontraram
Os escores totais e por domínio aumentaram significativamente com a idade em todos os grupos (p < 0,001). As crianças submetidas à correção de atresia de esôfago tiveram escores totais e de autocuidado menores que os controles saudáveis, independentemente da idade gestacional ou do subtipo cirúrgico (p < 0,05). Não houve diferenças entre grupos nos escores de mobilidade, comunicação ou cognição social.
A classificação pelos critérios de referência publicados do WIDEA-FS identificou um subgrupo de crianças com vulnerabilidades em comunicação e cognição social, sendo a vulnerabilidade relacionada à comunicação observada exclusivamente entre as crianças com atresia de esôfago. A pontuação do WIDEA-FS mostrou concordância moderada com as preocupações documentadas pelos clínicos, com sensibilidade de 75%, especificidade de 77% e valor preditivo negativo de 97%.
A maioria das crianças com atresia de esôfago (86%) recebia serviços de intervenção precoce, mais comumente fisioterapia e terapia alimentar.
Limitações
Trata-se de estudo com amostra pequena (37 crianças operadas e 19 controles), e o resumo não informa o desenho retrospectivo ou prospectivo, o centro ou centros envolvidos, o período de coleta nem a duração do seguimento. Os autores apontam que o alto uso de serviços de intervenção precoce provavelmente contribuiu para os desfechos funcionais favoráveis, o que pode subestimar a vulnerabilidade de desenvolvimento subjacente nessa população. A concordância moderada com as preocupações registradas pelos clínicos também limita a interpretação do instrumento como triagem isolada.
Para o pediatra
Entre 11 e 40 meses de idade, crianças corrigidas de atresia de esôfago podem ter desenvolvimento adaptativo globalmente adequado para a idade, mas o estudo identificou um subgrupo com vulnerabilidades específicas em comunicação e cognição social, além de escores totais e de autocuidado menores que os de controles saudáveis. A vulnerabilidade comunicativa apareceu apenas no grupo com atresia de esôfago. A maioria (86%) já recebia intervenção precoce, sobretudo fisioterapia e terapia alimentar, e os autores recomendam vigilância contínua do neurodesenvolvimento e destacam o potencial de medidas relatadas pelos pais para identificar precocemente crianças que possam se beneficiar de intervenções direcionadas.
Para o especialista
O estudo acrescenta que, após a correção de atresia de esôfago, o WIDEA-FS relatado pelos pais mostrou escores totais e de autocuidado menores que os de controles, sem diferença por idade gestacional ou subtipo cirúrgico, e que a concordância com preocupações documentadas por clínicos foi moderada (sensibilidade 75%, especificidade 77%, valor preditivo negativo 97%). Os autores interpretam que o alto uso de intervenção precoce pode ter contribuído para os desfechos favoráveis e subestimado a vulnerabilidade subjacente, o que sustenta a vigilância neurodesenvolvimental continuada e sugere utilidade potencial do instrumento para triagem precoce. O desenho comparativo com amostra pequena e as informações ausentes no resumo sobre temporalidade e seguimento limitam a força dessas inferências.
Referência
Coronado J, Doucet KM, Zurakowski D et al.. Developmental vulnerability in infants and toddlers following esophageal atresia repair: A parent-reported functional assessment using WIDEA-FS. Early Hum Dev 2026.
DOI: 10.1016/j.earlhumdev.2026.106696 · PubMed: 42887094
Acesso: o artigo completo é pago na editora. Autores costumam enviar uma cópia a quem pede pelo e-mail de correspondência indicado no artigo.
Matéria escrita pelo Fôlego a partir do resumo publicado.
Fonte: PubMed · matérias do Fôlego · doi.org