Deleção nula homozigótica em IFT74 associa-se a displasia torácica asfixiante letal no recém-nascido
Pergunta clínica
Em recém-nascidos com tórax estreito e insuficiência respiratória grave, qual fenótipo e evolução clínica acompanham uma variante patogênica bialélica em IFT74?
Fôlego em 30 segundos
Lactente a termo com tórax estreito, pectus excavatum e macrocefalia evoluiu com insuficiência respiratória persistente, atelectasias de repetição e hipotonia axial, falecendo aos 4 meses em parada cardiorrespiratória. O sequenciamento de exoma identificou perda de cópias homozigótica em IFT74, compatível com displasia costal-torácica tipo 20; o relato isolado não estabelece prognóstico nem conduta.
- Muda algo agora?
- NãoGrau do que o próprio estudo sustenta, não uma recomendação do Fôlego.
- População
- Recém-nascido a termo, acompanhado até os 4 meses · Displasia torácica asfixiante (síndrome de Jeune) por variante patogênica em IFT74, classificada como displasia costal-torácica tipo 20 (SRTD20) · UTI neonatal de serviço terciário, com encaminhamento de hospital local
- Desenho
- Relato de caso de um lactente a termo, com seguimento até o óbito aos 4 meses
- Estágio da evidência
- Artigo revisadoArtigo publicado em revista, após revisão por pares.
- Conflitos de interesse declarados
- Os autores declaram não ter conflitos de interesse.
- Principal limitação
- Não houve teste de segregação nos pais, que recusaram a investigação, de modo que não se pode excluir totalmente um rearranjo de novo em um dos alelos mascarado como homozigose.
O que fizeram
O lactente nasceu de cesariana, com peso de 3,36 kg (percentil 50), perímetro cefálico de 37 cm (acima do percentil 90) e comprimento de 49 cm (cerca do percentil 50), e foi transferido à UTI neonatal com 3 horas de vida por desconforto respiratório. A radiografia de esqueleto ao nascer foi descrita como normal, com ossos longos simétricos (comprimento femoral bilateral de 7,2 cm, no limite inferior da normalidade) e sem clavículas em "cabide de bicicleta"; a reavaliação posterior e a radiografia de acompanhamento mostraram tórax progressivamente estreito em relação ao abdome. Ultrassonografia abdominal, ultrassonografia transfontanelar, exame oftalmológico e ressonância magnética cerebral não mostraram alterações estruturais; a ressonância revelou apenas discreta proeminência das folhas cerebelares e dos espaços subaracnóideos extra-axiais, interpretada como achado inespecífico benigno. A investigação metabólica (função tireoidiana, ácidos orgânicos plasmáticos e urinários, amônia e lactato) foi normal. O sequenciamento de exoma identificou perda de cópias homozigótica de pelo menos 120 pares de bases no gene IFT74 (seq[GRCh38] 9p21.2 (26961968_26962087)x0), deleção intragênica em região codificadora central, prevista para truncar a proteína ou desencadear decaimento do mRNA mediado por nonsense. Não havia consanguinidade nem história familiar de displasias esqueléticas, mortes neonatais inexplicadas ou ciliopatias.
O que encontraram
| Desfecho | Resultado |
|---|---|
| Insuficiência respiratória neonatal | Desconforto respiratório com gemido desde o nascimento, sem melhora com oxigênio por cânula nasal; suporte inicial com ventilação mandatória intermitente sincronizada nasal trouxe melhora transitória, mas o paciente manteve necessidade de FiO₂ elevada e evoluiu com atelectasia pulmonar, exigindo intubação e ventilação mecânica. Múltiplas tentativas de desmame e extubação falharam por atelectasias recorrentes, com melhora gradual após fisioterapia respiratória. |
| Tônus e avaliação neurológica | Aos um mês, hipotonia axial com postura em pernas de rã, tônus periférico e reflexos tendinosos profundos preservados, reflexos de Moro e de sucção ausentes. |
| Alimentação e deglutição | Avaliação fonoaudiológica mostrou sucção não nutritiva fraca e pouco sustentada, com fadiga rápida e sucção intraoral pobre; não se obteve reflexo de deglutição à estimulação oral e o padrão coordenado de sucção–deglutição–respiração estava ausente, indicando alto risco de aspiração. Houve melhora gradual com terapia. |
| Desfecho respiratório após alta | Alta em ar ambiente por volta de dois meses e meio, com taquipneia basal persistente. Cinco dias depois, reinternação por piora respiratória, hipoatividade e baixa aceitação oral, evoluindo com cianose; radiografia de tórax mostrou infiltrados pulmonares e a proteína C reativa estava elevada, tratado como pneumonia por aspiração com antibióticos por cinco dias, com melhora. No mesmo dia da alta, retornou com cianose recorrente e desconforto grave, necessitando intubação de urgência, durante a qual se observou leite saindo da cânula traqueal, sugerindo aspiração. |
| Gastrostomia e evolução final | Após estabilização, a família consentiu com a gastrostomia, que foi realizada; a alimentação enteral foi iniciada por essa via, mas o paciente permaneceu dependente de ventilação. Aos 4 meses, apresentou parada cardiorrespiratória súbita; a reanimação foi iniciada imediatamente, sem retorno da circulação espontânea, e o óbito foi constatado. |
Quanto confiar
- A favor: A variante foi caracterizada em nível molecular, com descrição da localização genômica e da consequência prevista sobre a proteína.
- A favor: A evolução clínica foi documentada de forma detalhada, do nascimento ao óbito, incluindo avaliação neurológica, de deglutição e de imagem.
- Poucos pacientes: Trata-se de um único paciente, o que não permite estimar frequência, sobrevida nem espectro fenotípico.
- Centro único: O caso foi atendido e descrito por um único serviço terciário, com encaminhamento de outro hospital.
- Não localizado no material consultado: Teste de segregação e genotipagem dos pais
- Não localizado no material consultado: Seguimento além dos 4 meses de vida
Na prática
O caso importa para neonatologistas, pneumologistas e intensivistas pediátricos que atendem recém-nascidos com tórax estreito e insuficiência respiratória precoce. Ele mostra que uma radiografia de esqueleto normal ao nascer não afasta displasia torácica em evolução, e que a investigação genética pode dar nome à condição e orientar o aconselhamento familiar. O estudo não testou nenhuma intervenção: não compara suportes ventilatórios, momentos de gastrostomia nem estratégias de manejo de secreções, e não estabelece que o diagnóstico precoce mude o desfecho. A transferência para o contexto brasileiro depende de acesso a sequenciamento de exoma e a suporte ventilatório prolongado em UTI neonatal, recursos cuja disponibilidade o material não descreve.
Contexto
A displasia torácica asfixiante, ou síndrome de Jeune, é displasia esquelética rara causada por defeito do cílio primário, classicamente ligada a variantes em IFT80, DYNC2H1 e WDR19; variantes bialélicas em IFT74 foram descritas mais recentemente como causa de displasia costal-torácica tipo 20. A mortalidade na displasia costal-torácica decorre sobretudo de insuficiência respiratória por restrição torácica, e casos com perda completa de função tendem a ser letais no período neonatal, ao contrário de variantes hipomórficas, associadas a sobrevida na infância com doença respiratória crônica e degeneração retiniana progressiva. Estudos funcionais citados pelos autores localizam IFT74 no citoplasma dos cílios móveis respiratórios, e sua deficiência produz fenótipo semelhante ao da discinesia ciliar primária, o que os autores consideram provável agravante do quadro neste paciente.
Referência
Abadi A, Ateeq B, Kittaneh H et al.. Asphyxiating thoracic dystrophy associated with IFT74 pathogenic variant: a case report. BMC Pediatr 2026.
DOI: 10.1186/s12887-026-07472-4 · PubMed: 42972553
Texto completo gratuito: doi.org, licença CC BY-NC-ND.
Matéria escrita com inteligência artificial e publicada automaticamente; o editor responsável, Andrey Barbosa Pimenta, acompanha o que vai ao ar e corrige quando necessário.